<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407</id><updated>2012-02-16T03:47:40.529-03:00</updated><category term='reminiscências'/><category term='conto'/><category term='introdução'/><category term='achados e perdidos'/><category term='crônica'/><category term='luto'/><category term='encontros inusitados'/><category term='pulsações'/><title type='text'>::papéis bissextos::</title><subtitle type='html'>mais importante que o tempo é o que fica depois que ele passa</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>23</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-8206030469552896</id><published>2011-08-21T21:01:00.007-03:00</published><updated>2011-08-21T23:16:41.690-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pulsações'/><title type='text'>ÉKSÓ</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: inherit; line-height: 115%;"&gt;Nunca me rebelei contra os uniformes escolares. Desde a escolinha, em criança, assistia às aulas trajado no fardamento completo – da camisa ao tênis. Sem qualquer tipo de customização, sem boné, sem relógios coloridos, sem jaquetas ou sem qualquer assessório que voluntariamente transgredisse a básica ideologia do fardamento – igualar. Ainda assim, jamais pude escapar da sensação de deslocamento: a cabeça ruiva, flamejante, faroleira, estava sempre em cima de mim, acima de mim. A implicância das demais crianças com meus cabelos ruivos, o espanto em perceber que sou facilmente localizável, o apontar dos outros nas ruas, os adjetivos “exótico”, “diferente” ou outros do mesmo campo semântico constantemente me sendo entregues... Mas o que fazer? Era fato: não havia outras crianças ruivas na escola, na rua, no bairro – havia na cidade? Não lembro. E assim também o foi na adolescência. Mesmo tendo vindo para uma cidade bem maior durante a primeira fase da juventude, mesmo encontrando ocasionalmente com outros ruivos em alguns lugares, em ônibus – nossos olhares sempre atentos um pro outro, talvez mais admirados conosco que os outros de cabelos de tonalidade mais comum, o silêncio que dizia espantado: um ruivo!, até o momento de sairmos de nossos campos de visão com uma levíssima estranha sensação de comunhão . Eu devia ter aprendido melhor para hoje não me deixar atingir tanto. Pois tudo isso àquela época eram, decerto, ensaios para hoje. Hoje que dentro de mim tudo é tão incandescente e magmático que suplanta qualquer brilho ígneo que meus cabelos agora um tanto esmaecidos possam radiar ao sol. Hoje é o meu de-dentro que sinto muito mais singular, exótico, diferente, tantas vezes estranho a mim mesmo, de fogo – ruivo. E em meio à mudez instaurada entre quem eu vejo e me vê por onde vou, ou a pouca palavra entre mim e os que conheço, não posso esperar que me apontem, que me localizem pelo que jorra de mim em – mim. Entretanto, ontem à noite, como em alguns sábados à noite, saí, fardado de sorrisos, de perfumes, de roupas, de amigos, desejoso de me igualar a quem sai aos sábados à noite para se divertir. Às vezes consigo. Gosto. Mas ontem falhei. Não sei o que aconteceu, estava indo bem, a música estava boa, as companhias eram agradáveis, até que desavisadamente como são os abalos sísmicos meus avessos começaram a se remexer, o âmago a se chocar contra o âmago, corri para o banheiro e vomitei. Na boca ficou, muito representativamente, um insuportável gosto amargo. Fui imediatamente ao bar, comprei uma bebida que engolia em grandes goles, enquanto engendrava conversas com quem estava ao meu redor sobre qualquer coisa para tentar disfarçar a falência de meu ânimo. Dançar já estava fora de qualquer cogitação. Tentei flertes – mas era inútil. Nada mais eu tinha a ver com as pessoas e com o local e com a música. Aquela velha sensação de garotinho na escola havia voltado, mas potencializada com a impiedosa força com que maltrato a mim próprio e, ao mesmo tempo, também com a selvageria de uma autoestima liberta, que em onda andante e flexível agora corre desaferrada, que nada mais quer deixar morrer no coração, me deixava eriçado.&amp;nbsp; Tudo ali ficou assombrosamente bobo, inferior, débil, patético. O ar de tão pesado exigia esforço para entrar nas narinas e, como se não bastasse, estava inteiramente contaminado com a fumaça de cigarros irritantes.&amp;nbsp; Estava cada vez mais difícil manter a pose. Foi então que o moço ao meu lado, moço que escreve livros pra criança, chegou mais perto de mim e do nada perguntou: você não se sente daqui, não é? Fiquei constrangido como quem é pego em flagrante. Não, agora não me sinto, respondi num sorriso nervoso. Me despedi dele num longo e forte abraço, também de quem estava mais próximo, tomei um táxi e voltei para casa, exaurido&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif; line-height: 115%;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-8206030469552896?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/8206030469552896/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=8206030469552896&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/8206030469552896'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/8206030469552896'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2011/08/ekso.html' title='ÉKSÓ'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-223184223316633944</id><published>2011-08-15T21:29:00.006-03:00</published><updated>2011-08-16T00:27:22.338-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pulsações'/><title type='text'>ORIDES FONTELA SEGURANDO MINHA MÃO</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Não que esperasse muito do filme, mas embora minha companhia houvesse desmarcado e estivesse demasiado em cima da hora para convidar outra pessoa para ir comigo, eu precisava ir ao cinema hoje. Aliás, digo que precisava ir ao cinema porque já era o planejado – em verdade, o que eu precisava mesmo era sair de casa, sair do que é possível, do que é meu e me cerca, porque hoje eu era um perigo para mim: memórias mentindo o passado, rastros de mim dando voltas, esquecimentos desacertados... Fui sozinho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Não havia quase ninguém na sala – que vazia, penumbrática e impessoal como se encontrava era o que eu precisava. Mas era a primeira sessão e eu havia chegado cedo. Faltavam ainda vinte minutos para começar a projeção do filme e depois de alguns minutos comecei a me impacientar com a espera. Não havia fome, sede, vontade de ir ao banheiro, nada para se fazer. Por sorte eu havia deixado dentro da bolsa o livro da Orides Fontela e, como a luz ainda permitia, folheei algumas páginas relendo poemas favoritos e retomando, com gosto de novos, poemas já esquecidos, como este que me trouxe o choro que eu precisava para me consolar comigo: &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNoSpacing" style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;SEMEIO SÓIS&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNoSpacing" style="text-align: center;"&gt;e sons&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNoSpacing" style="text-align: center;"&gt;na terra viva&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNoSpacing" style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNoSpacing" style="text-align: center;"&gt;afundo os&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNoSpacing" style="text-align: center;"&gt;pés&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNoSpacing" style="text-align: center;"&gt;no chão: semeio e&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNoSpacing" style="text-align: center;"&gt;passo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNoSpacing" style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNoSpacing" style="text-align: center;"&gt;Não me importa a colheita.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNoSpacing"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNoSpacing" style="text-align: justify;"&gt;Não se importar com a colheita. Contentar-se em semear. Clarice Lispector também escreveu algo parecido: “&lt;i&gt;nem em tudo eu quero pegar. Às vezes quero apenas tocar. Depois o que toco às vezes floresce e os outros podem pegar com as duas mãos.”&lt;/i&gt; É difícil. É triste. Mas parece que para mim só isto. Olhar para trás e apenas ver os frutos. Ver os outros desfrutarem do que semeei em suas vidas. E digo isso sem arrogância, digo como diria Tistu, o menino do dedo verde, só que sem sua inocência e sem sua alegria. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNoSpacing" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNoSpacing" style="text-align: justify;"&gt;Sorrisos, amizades, paixões, amores, projetos. Arregaçar mais as pernas das calças, pisar mais fundo – para semear e para passos cada vez mais largos. Não tocar nos frutos. Não amar os frutos. Não se importar com a colheita. Consolar-se ainda que pela resignação e não mais sofrer, pois a travessia, ao menos, é fecunda. E meu nome, provavelmente, aciona à muitas lembranças caminhos com sóis e sons.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNoSpacing" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNoSpacing" style="text-align: justify;"&gt;O filme iria começar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há dias em que anos se passam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-223184223316633944?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/223184223316633944/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=223184223316633944&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/223184223316633944'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/223184223316633944'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2011/08/orides-fontela-segurando-minha-mao.html' title='ORIDES FONTELA SEGURANDO MINHA MÃO'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-3236588557465351374</id><published>2011-06-19T21:54:00.000-03:00</published><updated>2011-06-19T21:54:33.134-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pulsações'/><title type='text'>SINTO MUITO</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;&lt;i&gt;O peso de sentir! O peso de ter que sentir!&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;Fernando Pessoa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É tão muito tantas coisas que sinto, que eu sinto muito por mim. &amp;nbsp;Numa entrevista que li, Millôr Fernandes, ao receber a pergunta: “como vai você, profundamente falando?”, respondeu : “vou profundamente, não sei de outro jeito”. Suponho que seja assim: por muito, diverso e constante, sentir não é coisa de se aprender. &amp;nbsp;Também eu vou profundamente por não saber de outro jeito. E é preciso se esforçar bastante para pagar o preço que se cobra.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Às vezes há sentimentos, suaves ou sofridos, que se fazem enormemente em mim sem que no entanto eu lhes saiba nomear. Houve época em que busquei empatia nos outro para, quem sabe, lhes definir ou ao menos apontar a distância entre mim e sua compreensão. Nunca obtive resposta. Hoje, resta-me aceitar, como disse a Hilda Hilst, que os sentimentos vastos não têm nome.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas o meu nome, esqueço. Por isso, não raro, acontecem momentos como certa vez, numa rodoviária: “o meu nome é Filipe”, eu disse – a quem? – ao moço do guichê que havia perguntado para preencher minha passagem, ou a mim mesmo transparente, refletido no vidro do guichê que se interpunha entre nós? Ele anotou. Eu notei: às vezes era como não fosse – meu nome é Filipe. É que quando preciso me chamar, me chamo: Eu. A existência pede o nome. O nome nos circunscreve. Não há como fugir: meu nome faz: Eu.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tudo é tão capaz de ferir. Toda luz, sobretudo a lucidez, é impiedosa. Perguntei a uma prima se a resistência que ela tem em deixar de lado em alguns momentos suas onipresentes lentes de contato e usar uns óculos desses tão bonitos e modernos que a gente encontra nas óticas tinha a ver com o fato de ela, quando criança, ter sido desde cedo obrigada a usá-los e, lamentavelmente, fazerem-na usar uns horríveis, que a enfeiava. Ela me respondeu que não, que não os usava porque está tão habituada às suas lentes – que jamais comportaram o grau alto que ela realmente necessita – de modo que quando põe os óculos – estes sim com grau certo – enxerga tudo tão bem que se sente tonta e nauseada. Sim, a maior parte de nós não suporta.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A consciência demais do ser, a excessiva vivência, é tão capaz de ferir, tão agressivamente real – real que nos despedaça. Numa das vésperas de um de meus aniversários – um ano a ganhar ou um que se perdia? Sentia-me tão cheio de vida que doía: pura vida magmática em estado pastoso. Telefonei para uma então amiga que entendia desses assuntos para perguntar o que fazer. &amp;nbsp;– Como é mesmo que se desperdiça a vida, vivendo demais ou de menos? Tenho poucas histórias para contar. Tenho boas histórias para contar. São melhores as de enredo triste e final feliz ou as de enredo feliz e final triste?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cada um com sua preferência. Sei mesmo é que haverá mais histórias. Outras findarão. E eu sentirei todas, sentirei muito, sentirei bem, porque o que há de infinito nelas, nas coisas em geral e na própria vida, é a repercussão delas em nós.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-3236588557465351374?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/3236588557465351374/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=3236588557465351374&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/3236588557465351374'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/3236588557465351374'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2011/06/sinto-muito.html' title='SINTO MUITO'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-1253436929579324707</id><published>2011-06-12T22:16:00.002-03:00</published><updated>2011-06-24T15:06:22.453-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pulsações'/><title type='text'>SOZINHO NO DIA DOS NAMORADOS</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;Enquanto não superarmos&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;a ânsia do amor sem limites,&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;não podemos crescer&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;emocionalmente.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;Enquanto não atravessarmos&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;a dor de nossa própria solidão,&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;continuaremos&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;a nos buscar em outras metades.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;Para viver a dois, antes, é&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;necessário ser um.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;(não se sabe quem é o autor)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hoje, no Brasil, convencionalmente, é dia dos namorados. Nos últimos dias antecedentes, ouvi um sem número de vezes, de várias pessoas, queixas, sérias ou em chiste, de sua condição de solteira. E até o fim do dia, sobretudo nas redes sociais, se acumularão postagens com lamentações.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Todos parecem concordar: por numerosos que sejam seus amigos, por melhor que seja sua relação com familiares, ter alguém para dar e dele receber o que entendemos por amor, é significativamente diferente.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No entanto, a busca por alguém para dividir a vida, quando agravada com a ansiedade de quem enxerga nisso condição para felicidade e somada ao inevitável desastre de conciliá-la com o egocentrismo orgulhoso que assistimos em nossos tempos, se configura em resultados mais e mais frustrantes.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não é bom estar só. Eu, só que estou – encarando a solteirice de outra forma após uma única, mas duradoura experiência de um relacionamento – sei. Pequenas coisas que me eram alheias passaram a ter um outro significado e, não raro, me pego sentindo falta delas: me permitir perder cenas importantes de um filme no cinema para trocar um beijo, banhos quentes na madrugada depois do sexo, o sexo sem cobranças de corpo e performance, a vontade de dar presentes advinda da mais gratuita vontade de ver estampada na cara do outro aqueles minutos de alegria ao desembrulhar o pacote, me sentir reivindicado, dizer “eu te amo” sentindo a vibração de cada letra, entre tantas outras.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Dizem que é mais fácil para quem toma a iniciativa de terminar a relação se adaptar ao seu fim. Comigo não foi. Tudo se deu por tantas nuances não percebidas, sucessões de mal-entendidos, palavras importantíssimas que jamais puderam ser ditas e tanto tempo já passado, que não vem ao caso, agora, comentar. &amp;nbsp;O fato é que, chegada a hora em que percebi que extrapolei os limites da humildade e me encaminhava para humilhação na tentativa reverter o quadro (&lt;i&gt;Nunca foste tão verdadeira / como nestes últimos dias de corajosa submissão&lt;/i&gt;. – mas esses dois versos da Hilda Hilst sempre me ajudaram a jamais me arrepender do que fiz), fiz o que há muito, mesmo antes do relacionamento, eu precisava fazer: escolher a mim.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foi definitivamente a experiência mais dolorida por que passei na vida até agora, pois, se essa não era a primeira vez que eu sofria por amor, foi a vez de unir o sofrimento emocional ao físico, somatizando reações e sintomas que agrediam meu corpo. Mas como quem precisa construir um edifício onde há uma velha e abandonada casa, não podendo assim simplesmente erigi-lo por cima, adentrei ao interior da casa, fucei seus avessos, cavei e quebrei os alicerces para novamente me reconstruir – sendo ainda cedo para dizer em definitivo, decerto pelo menos mais forte; ressignificando a mim mesmo e a minha solidão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Durante o processo apareceram algumas pessoas que, a despeito de uma certa postura arredia em que me encontrava, me deram o carinho que eu precisava e outras que me prometeram amor, argumentando, por saberem de minha fragilidade no momento, que um amor se cura com outro. Propostas estas que tive que recusar, em respeito ao sentimento de tais pessoas (uma vez que eu não poderia lhes retribuir naquele momento) e, acima de tudo, a mim mesmo. – Tal antigos guerreiros trabalhavam a resistência de seu corpo a venenos ingerindo gradativas doses do mesmo veneno, eu decidi que precisava me curar do mal estar causado pela solidão não cedendo ao que parecia ser mais fácil, me mantendo só.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Há sempre um tanto de desespero e fraqueza nas pessoas que engatam um relacionamento no outro. Elas se iludem com o suprimento de afeto oferecido pelo novo que vai amontoando em cima das ruinas do anterior, gerando uma espécie de vício que a arrasta para um buraco negro quando ela se vê sozinha.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sejamos religiosos ou não – mas educados num país de cultura fundamentada no cristianismo –, acredito que o velho mito de Adão e Eva embasa nossa ansiedade na busca de reunir o par de costelas que foi separado. Ludibriadas por discursos carregados de expressões como “metades da laranja”, “tampa da panela” e “almas gêmeas”, as pessoas não toleram mais qualquer ruído ou a mais leve assimetria no outro. O mundo de cada pessoa rivaliza em tamanho com o sol no qual ele orbita. Pois elas se sentem carentes, mas estão repletas de si, de ego e orgulho inflados, postulando suas regras baseadas em sua visão e experiências particulares – se você não as ama do jeito que elas esperam, então você não as ama. Não há perdão: o próximo!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ano passado assisti a famosa encenação do Banquete, do Teatro Oficina do Zé Celso. Uma das cenas que mais me marcou foi a que mostrava os seres humanos, outrora reunidos, macho e fêmea num corpo só, mas agora separados e distintos os sexos, reivindicando aos deuses o retorno ao estado inicial, então Eros lhes esclarece que, voltando à condição anterior, beijos, abraços, carícias, sexo e tudo o que vem junto do amor não mais existiria.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É simples: para formar um casal é preciso duas pessoas. E duas-pessoas é a união de uma pessoa e outra pessoa, cada uma com suas diferenças, visão de mundo, personalidade, preferências, maneira de sentir, defeitos (e aqui lembro da Clarice Lispector: &lt;i&gt;“Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro...”&lt;/i&gt;), etc. Como certeiramente disse Fernando Pessoa: &lt;i&gt;“Se te é impossível viver só, nasceste escravo.” &lt;/i&gt;Não estaremos preparados para uma vida a dois se antes não aprendermos a ser sós. Lembrando novamente Clarice: &lt;i&gt;“Amor é dar de presente ao outro a própria solidão. Pois é a última coisa que se pode dar de si.”&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É simples, mas nem tudo o que é simples é fácil. Eu bem o sei. Mas aprendi. Aprendi sobretudo a aprender com isso. E hoje, mesmo só, sem companhia para cinema em tardes de domingo, sem transar sempre que quero, sem banhos quentes acompanhado, sem presentes ou sem presentear em datas como a de hoje, definitivamente, não me sinto carente. Ao contrário, sinto-me completo no que sou e totalmente desejoso em me melhorar mais como pessoa. Ainda que sofra costumeiramente com oscilações de auto estima, há em mim, ao lado da severidade com que me julgo e da dificuldade de me perdoar de minhas limitações e até mesmo do que simplesmente jamais serei, a certeza do que tenho em mim de bom. Sei de minhas qualidades, de minhas capacidades, da bondade que há nos meus atos e, acima de tudo, sei que nasci para o amor, que é dele que sou feito e por ele pacientemente espero, pois estou pronto como nunca estive.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-1253436929579324707?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/1253436929579324707/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=1253436929579324707&amp;isPopup=true' title='19 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/1253436929579324707'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/1253436929579324707'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2011/06/sozinho-no-dia-dos-namorados.html' title='SOZINHO NO DIA DOS NAMORADOS'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><thr:total>19</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-1391038765926208537</id><published>2011-04-28T20:08:00.002-03:00</published><updated>2011-04-28T23:15:18.079-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>PARECE COM A VIDA</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Saí de casa apressado, faltava menos de meia hora para a sessão do cinema começar e eu ainda precisava tomar o ônibus. Ao chegar na parada, só me restavam vinte minutos. O trânsito estava lento e depois de cinco minutos de espera impaciente, resolvi não desperdiçar a disposição que havia me feito decidir ver o filme sozinho, me arrumado e já estar ali: decidi tomar um táxi.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não precisei sinalizar – o motorista do táxi que passava de alguma forma entendeu, ao me ver olhar para ele, que eu precisava do seu serviço e fez um gesto interrogativo com a cabeça. Como eu sinalizei que sim, ele parou um pouco mais à frente de onde eu estava.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Desculpe ter feito o senhor caminhar, mas como eu vinha na outra faixa e com esse trânsito, só consegui parar aqui.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Não tem problema algum, mas preciso chegar ao cinema da Fundação Joaquim Nabuco em dez minutos, no máximo, você acha que consegue?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Pois fique tranquilo, em dez minutos você vai estar lá. Vai ver que filme?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Poesia – falei meio vacilante, com uma ponta de vergonha em assumir para aquele taxista que o filme que eu estava com essa urgência em ver era sobre poesia, essa coisa que hoje em dia quase ninguém mais lê e que, pensei, provavelmente na vida de taxista dele fosse supérflua.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Estou com um poeta no meu carro?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Não, não – sorri – sou só um estudante de Letras.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Pois eu agora sou poeta.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Ah, é?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Sim, como acho que todo mundo se torna quando está amando.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Olhei para ele com mais atenção: cinquentão, não era exatamente bonito, mas estava longe de ser um homem feio, alto, robusto, não parecia jamais, à primeira vista, ser do tipo que confessaria algo assim de maneira tão espontânea a um desconhecido. Mas continuou:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– É que como diz uma música que conheço, taxista nunca termina de contar uma história e passageiro fica sem entender, senão lhe contaria o que estou passando.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Entendo...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Mas, olhe, fui casado por vinte anos, nunca disse um “eu te amo” para minha ex-mulher. Com essa agora é diferente, eu sinto muita vontade de dizer e digo. Nossa história está complicada ainda, não estamos juntos e nem sei quando vamos ficar, mas eu digo que a amo sem esperar nada em troca.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Legal isso, não é todo homem que tem essa coragem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Pois é, eu vou tentar resumir rápido para você...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Então brevemente me contou a história. Pelo que pude entender, ele conheceu essa mulher antes da que se tornou sua esposa. Ficaram algumas vezes sem compromisso. Embora desde então ele já tenha se interessado de verdade por ela. Depois de alguns meses sem se verem, ele a encontrou grávida. Perguntou-lhe de quem era o filho e ela, mulher livre que era, disse não saber. Ele se ofereceu para assumir a criança, mas ela não quis, estava de viagem marcada para algum lugar da Europa. Depois disso, cada um seguiu um rumo. Ele casou, passou um par de décadas com a esposa e há dois anos se separou. Recentemente encontrou a mulher do passado, com o filho, agora com vinte e três anos. Ela lhe confessou ter quase certeza que o rapaz é filho dele, fizeram teste de DNA e deu positivo. Ela também esteve casada, o ex-marido era muito agressivo, batia nela, no filho e agora, mesmo separados, ele ainda inferniza a vida dela, sem deixar-lhe ter mais nenhum relacionamento, ameaçando-lhe até de morte, o que a deixa com muito medo. É o que os dois buscam resolver para enfim ficarem juntos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Achei interessante a história, com peripércias, desencontros, reencontros, contada à sua maneira de homem apaixonado. E em menos tempo ainda, já que estávamos bem próximos de onde eu desceria, contei para ele uma história que aconteceu com pessoas próximas, também cheia de elementos de folhetim, mas triste, sem amor ou reencontros no fim. Ele ficou curioso, me fez algumas perguntas, mas havíamos chegado e ao inverso do que diz a música que ele gosta, o passageiro precisava descer e o taxista ficou sem entender tudo. &amp;nbsp;Enquanto pagava, falei o que comumente se diz ao ouvirmos histórias do tipo:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– É, rapaz, acontece cada coisa na vida que parece filme ou novela...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;Suspirando ele respondeu:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Parece com a vida.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-1391038765926208537?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/1391038765926208537/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=1391038765926208537&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/1391038765926208537'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/1391038765926208537'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2011/04/parece-com-vida.html' title='PARECE COM A VIDA'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-5379408064440870437</id><published>2010-08-15T14:26:00.007-03:00</published><updated>2010-08-15T18:58:17.388-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='achados e perdidos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pulsações'/><title type='text'>QUINZE DE AGOSTO DE DOIS MIL E DEZ</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Remexendo em um antigo caderno de anotações, reencontro uns escritos que, embora não lembrasse onde estavam, jamais havia esquecido do conteúdo. Porque quando eles me aconteceram, quando eu os senti, vieram como as coisas mais bonitas jamais escritas ou lidas por mim. Não anotei com nomes ou sexo de personagens. Pois independente de quaisquer que sejam seus protagonistas, continuaria bonito. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;TRECHO I&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Personagem1 estava no hotel dormindo. Havia saindo na noite anterior com o Personagem2 e havia sido muito bom. Queriam ter dormido juntos para aproveitar melhor o pouco tempo juntos já que não moravam na mesma cidade, mas o amor entre os dois ainda era descoberta e segredo. Personagem2 não teria como explicar a seus pais uma noite inteira fora de casa. Personagem1 não insistira, estava cheio de medos e suas fragilidades lhe perturbavam. Sabia que ainda não estava envolvido por Pernagem2 como estava por ele. Mas há muito ninguém lhe parecia valer tanto a pena. Acordou meio que de sobressalto, com batidas na porta de seu quarto.&lt;/b&gt; &lt;b&gt;A recepção na havia anunciado ninguém. Ainda era tão cedo. Quem seria? Abriu a porta, sonolento.&lt;/b&gt;  &lt;br /&gt;&lt;b&gt; &amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;– Personagem2??!! Já acordou? Você nem deve ter dormido, né?&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;– Não consegui não, estava esperando que amanhecesse logo para sair de casa e vim para cá. – respondeu respirando forte, quase sem fôlego.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;– E o que aconteceu, por que você está assim, ofegante, aconteceu algo?&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;– É que eu vim de casa para cá andando, você sabe, não é longe. Mas daí eu vi que se eu apenas andasse ia perder um tempo que eu poderia estar aqui contigo, então vim correndo.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Personagem1 não conseguiu dizer nada. Apenas abraçou-lhe e beijou-lhe num misto de encantamento e gratidão. Nunca ninguém havia lhe feito algo tão bonito.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;TRECHO II&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Dois anos havia se passado. O amor dos dois não era mais segredo para ninguém. Mas Personagem1 havia escolhido aquele mesmo quarto de hotel para se encontrarem. Estavam em crise. Ele não conseguia entender por que Personagem2 estava tão intolerante. Sobretudo agora que, vencendo grande parte de seus bloqueios, tinha certeza do amor que devotava a ele(a). Não avisou a ninguém que viria. Durante o dia haviam apenas se entregado um ao outro num sexo de saudades. Mas era preciso uma conversa.&amp;nbsp; Personagem2 falava com um tom de irritação, usando verbos no passado e dizia não agüentar mais. Personagem1, segurando o choro, perguntou:&amp;nbsp; &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;– Então não dá mais para tocar a nossa música? – referia-se a Unison, música da Björk, que eles tanto gostavam.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Durante muito tempo ficaram em silêncio, até que Personagem2, também com voz de choro, responde:&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;– Dá sim, ainda dá sim para tocar a nossa música. &lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Abraçaram-se. Personagem2 por cima de Personagem1, deitados.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;– É amor, eu te amo, isso é amor, você sente? – perguntou Personagem1, dizendo aquilo como jamais havia dito antes a ele(a) ou a ninguém. &lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;– Sinto, sinto sim.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace;"&gt;&lt;b&gt;Personagem1 estava feliz como mesmo antes de conhecer Personagem2 não se sentia. Então amaram-se de novo.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juro que já tentei inserir esses dois trechos numa história que eu vinha escrevendo. Não deu certo. Como já disse aqui em uma outra postagem, não sou bom escritor. Não consegui dar um final feliz à história. E eu não quero, não quero mesmo dar a essas duas passagens tão bonitas que me vieram em dias de inspiração um final infeliz. Prefiro então deixá-las assim, fragmentadas. E cada um que as ler, que recriem com elas histórias em dias de sol e com pessoas de belos sorrisos sorrindo. Principalmente no fim.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-5379408064440870437?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/5379408064440870437/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=5379408064440870437&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/5379408064440870437'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/5379408064440870437'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2010/08/quinze-de-agosto-de-dois-mil-e-dez.html' title='QUINZE DE AGOSTO DE DOIS MIL E DEZ'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-5455540650946196358</id><published>2010-08-06T20:12:00.007-03:00</published><updated>2010-08-13T20:19:24.311-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='luto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>TECENDO O LUTO</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: xx-small;"&gt;&lt;i&gt;“O  manto é longo, a fazenda é pesada, cheia de risos e boas lembranças que  hoje causam dor, mas é necessário tecê-la, vivê-la, chorá-la para  depois, como tudo que está sob o tempo, dobrá-la e guardá-la num canto  da alma que nos lembra sempre que a proporção da dor do luto é a mesma  que o prazer no qual foi vivida aquela história.”&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: xx-small;"&gt;&amp;nbsp;(Afonso Henrique Novaes)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: xx-small;"&gt;&lt;i&gt;"Para poder morrer&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: xx-small;"&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;Guardo insultos e agulhas&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: xx-small;"&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;Entre as sedas do luto."&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: xx-small;"&gt;(Hilda Hilst)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Embora  não tivesse aberto os olhos ainda, ela já havia acordado. Por ser tão  primeira hora da manhã, a luz do sol parecia não ser feita para outra  coisa senão clarear o mundo. – As cortinas estavam abertas: não abrira  os olhos, mas sentia a luz por cima das pálpebras, por cima do corpo;  sem calor, apenas a leve e delicadíssima presença do que, apesar de  impalpável, existe.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Amanhecia,  mas este novo dia parecia que não seria diferente dos outros exaustivos  daquele outono: imediatamente lembranças e pensamentos angustiantes se  encarregavam de lhe tirar o torpor de um sono perturbado, conseguido a  custo em meio à insônia que os mesmos pensamentos e lembranças  provocavam. Sabendo no que isso resultaria tentou então fazer mais uma  vez o que instintivamente aprendera: respirar profundamente – inflar  totalmente os pulmões, prender o ar até onde suportasse, depois soltar  lenta mas completamente; repetindo isso incontáveis vezes. Já haviam lhe  dito que ela não sabia respirar – era mesmo possível que alguém que  vive não soubesse? – e a sôfrega força que precisava empregar naquele  ato parecia confirmar que era verdade o que diziam. O excesso de  oxigênio lhe deixava internamente aquecida. Sentia uma espécie de  tontura que lhe dissipava todas as idéias e, por alguns instantes, tinha  a impressão de que tudo estava bem. – Pois se não conseguia calar os  pensamentos, tê-los difusos ao menos era tolerável. Apesar de muda e  imóvel, a luta consigo mesma a deixou ainda mais esgotada e, por mais  alguns minutos, ela adormeceu.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Entretanto,  sua mente não lhe dava trégua. E desta vez sonhos que reprisavam e  recriavam cenas daquela noite em que só lhe restou calar apesar das  tantas coisas que tinha para dizer lhe fizeram despertar já com a tosse  característica que principiava a agonia a seguir. Tossia, tossia,  tossia. Peito ardente, arfante. Ar desencontrando-se na garganta.  Náusea. Agora seria inútil lutar: esticou a cabeça para fora da cama e  quase a enfiou no balde de zinco que prevenidamente vinha deixando  próximo à cabeceira. Contrações fortes de vômito queriam expulsar com  violência o que havia dentro de si, lhe virar do avesso. Mas nada saía, a  não ser sons altos de engulhos que ela intimamente sabia serem  deformidades dos sons de todas as suas palavras humildes, remitivas,  redentoras, benfazejas que, por não terem sido ditas, foram forçadamente  engolidas, contaminadas com frustrações e decepções, lhe causando esta  espécie de indigestão que perdurava por quase dois meses.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Levantou-se  vacilante. Foi até a cozinha, acendeu o fogo e sobre ele pousou uma  escura chaleira de ágata com água. Enquanto esperava a fervura, moeu  alguns grãos de café torrados naquela semana. Mastigava pedaços de pão  dormido que rasgava com os dedos. Estava desabituada a perceber, mas  tinha fome. O cheiro quente da bebida adentrou o nariz organizando-lhe o  estômago. A sensação de náusea então se aquietou. O cheiro evocava-o.  Ele que costumava esfregar café nas mãos quando não se convencia de que  elas estavam livres do cheiro do couro que punha para curtir dos bichos  que caçava. Sugava o café aspirando também o ar que o esfriava no mesmo  instante em que engolia, fazendo barulho, impaciente.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Na  velha e larga tina de cedro, preparou um banho com folhas de  manjericão. Despiu-se e sentou-se reclinando as costas na borda. A água  estava quente demais, mas procurou não se importar. Tentava  concentrar-se no cheiro vaporoso que tomava conta do ambiente. Sentia o  rosto e o pescoço, livre dos cabelos presos no alto da cabeça, suarem. O  bico dos seios e o sexo levemente ardiam na temperatura da água e havia  um misto de incômodo e prazer manso nisso. Passeava as mãos pelas  pernas. Balançava para frente e para trás o corpo, vagarosamente.  Precisava relaxar. Mas imagens dos banhos que haviam tomado juntos,  sobretudo os das madrugadas que adentravam amando-se, se interpunham  entre a visão da parede nua a sua frente. Ensaboavam-se até ficarem  brancos de espuma, escorregadios; abraçavam-se com braços e mãos  deslizando sem atrito nos corpos; beijavam-se com beijos que já  principiavam molhados – e quase sempre o desejo se reacendia e novamente  se amavam, líquidos, fluentes.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Ela  queria também ter lhe falado dos banhos, mas não pôde... A náusea se  anunciou novamente em forma de tosse. Respirava. Respirava. O manjericão  lhe facilitava a tarefa. E engoliu de volta um engulho que se esboçou  sair. Mas a ansiedade voltara. Suas têmporas latejavam. Deixou-se  escorregar devagar, mergulhando inteiramente por quase um completo  minuto dentro d’água. Emergiu com os cabelos soltos, caídos no rosto que  formigava, pesando nos olhos que mantivera fechados: desabou no choro,  rendida. Não procurou se conter, não havia por que se conter – chorou  desenfreadamente. As lágrimas molhavam o banho; misturando-se àquela  infusão dela mesma, salgando-lhe. Sentia-se sufocada ante a consciência  que sempre tivera de que não sabia manter boas relações com o seu  passado. Precisava arrumar meios de, se não esquecer, ao menos conviver  com as lembranças. Depois de algum tempo as lágrimas cessaram. Com as  mãos em concha levou um pouco de água ao rosto e lavou os olhos.  Levantou-se. Esticou o braço para abrir a porta de uma arca onde  guardava lençóis e roupas de banho. Puxou uma toalha e o movimento fez  cair no chão o manto.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Enxuta,  vestida numa leve combinação de cetim, estendeu o manto por sobre a  cama até ao longo do chão. O fez sem muito pensar, movida pelo súbito  reencontro com aquela peça que havia desesperadamente guardado desde o  rompimento. Muitas e muitas vezes, acometida pelas recordações que lhe  perturbavam, sentira intensa vontade de fazer o que agora, com coragem  encontrada não sabia onde, estava fazendo. Mas aquele manto era  justamente a única coisa que ela, firme, vinha conseguindo evitar todo  esse tempo. A não ser por um minguado cheiro de guardado, estava como da  última vez que o vira.&amp;nbsp; Longuíssimo, com sua trama de linhas,  trabalhado em bordados – ela o olhava, perscrutando, analisando como se  não houvesse sido ela mesma, fio a fio, sua artesã. Tantas eram as  imagens, tantos eram os signos, mapas, poemas, receitas, tantas eram as  frases, pedidos, perguntas, promessas, juras, todos gravados ao longo  dos anos em sua extensão. Nódoas de doces, de sexo, respingos de sangue.  Remendos, emendas. E na extremidade que ainda se fazia, a que ela  arrancou com força, quase quebrando o tear, insultos, furos, franjas  irregulares feitas pelo desfiar do desgaste. De que lhe serviria aqueles  vastos metros de tecido agora? Eram a materialização dos fantasmas que  lhe assombravam. O corpo de um amor que morria. O que não se podia era  morrer também. Era preciso fazer algo. E intuitivamente, como a lagarta  que pára de comer em sua infinita fome para enrijecer-se na pupa em que  se transformará para uma nova vida, ela de repente soube o quê.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Arrastou  o manto até a sala, sentou-se numa rangente cadeira de balanço e,  munida de uma fina agulha de crochê e tesoura, pôs-se a desfiá-lo.  Desentrelaçava cuidadosamente cada fio e desfazia os bordados. Levou  longas horas nisso. Fazia-o não sem dor, mas com gestos decididos. Sabia  que suas mágoas não sarariam depois daquilo – a ação do tempo é a única  força capaz de erodir sentimentos. Entretanto, se era inevitável o  sofrimento, que ele não jorrasse incontido, lhe consumindo. Sofreria bem  – apenas. Ao terminar, o chão estava repleto de linhas que se  amontoavam numa bucha disforme. Aquilo lhe fez lembrar do dia em que ao  entrar em casa, depois de algum tempo lá fora tosquiando as ovelhas, ela  se deparara com o chão da sala invadido por mechas e cachos dos cabelos  dele. Cabelos que ela insistira exaustivamente que ele não levasse  adiante a idéia de cortá-los. Cabelos que haviam sido umas das primeiras  coisas que lhe chamou a atenção nele. Não havia ficado feio com os  cabelos curtos, mas já havia algum tempo ela entendera que aquele gesto  dele fora, de alguma maneira, símbolo de sua alteração de modos e  maneiras para com ela. Aquele havia sido seu primeiro gesto entre outros  tantos mais insolentes, ofensivos e grosseiros que se seguiram ao longo  do último ano. Acima do espelho da penteadeira ela ainda guardava,  amarrado em uma fita, um dos cachos que colheu do chão.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Em  dois cestos carregou aquele sem fim de fios para o quintal. Acendeu uma  vigorosa fogueira cercada de pedras e, acima das pedras, depositou um  pesado caldeirão de estanho cheio de um preparado com pigmento negro.  Cozia mechas que saiam desfibriladas da fervura e as juntava  cuidadosamente para não engrenharem, estendendo-as no varal, ao sol que  ainda se fazia forte. Secavam rápido. Não demorou, seu quaradouro  flamulava fibras escuras, sibilantes, que ela colhia reorganizando em  mechas maiores, presas com um nó frouxo numa das pontas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Depois,  a roca. Deslizando pela roda, as fibras eram torcidas refazendo-se em  fio. Enrolavam-se num novelo no fuso que girava ligeiramente. O zumbido  do fuso junto com o estalar do pedal invadiam a casa. Ele costumava  sempre reclamar do barulho da roca, pois ela sempre costumava fiar pela  manhã, quando as maçarocas de fibras pareciam mais firmes e ele dormia  preguiçosamente em dias que não tinha obrigações matinais. Dizia que  ainda lhe daria uma roca nova para dormir em paz.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;As  linhas eram guiadas pelos seus dedos, que apesar de terem as laterais  engrossadas com o calejar do ofício, estavam sendo marcados por finos  cortes que doíam e sangravam. Mas ela não parava. Às vezes chupava os  dedos limpando-os, em outros momentos deixava que o fio levasse o sangue  ao novelo. Parecia estar numa espécie de transe provocado pelo barulho  da roca. Insolente. Ofendida. O novelo ganhava mais e mais forma.  Parecia um enorme casulo de onde poderia sair um inseto peçonhento. E  assim foi, entrando na noite que desceu sem estrelas e sem lua, passando  por quase ela inteira, parando apenas quando não havia mais fibra para  fiar. Então lavou as mãos com sumo de ervas cicatrizantes, envolveu os  dedos em tiras de panos embebidos em ungüento e comeu algumas frutas que  estavam sobre a mesa.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Fazia  frio. Embrulhou-se num enorme xale que havia sido de sua mãe.&amp;nbsp; Não  tinha sono, mas desta vez a razão não era apenas a insônia que vinha lhe  minando. A ansiedade maior daquela noite era motivada por terminar o  que havia começado. Como se não bastassem as velas já acesas, acendeu as  lamparinas. As mesmas que costumavam ficar acesas durante a noite  inteira quando ele voltava acabrunhado das eventuais brigas sem sentindo  que travavam. Havia sempre pão e vinho em tais ocasiões.&amp;nbsp; Falavam  apenas o necessário. O amor na reconciliação era sempre mais ardente,  recompensando os corpos depois de alguns dias de solidão.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Sentada  de frente para o tear – o resistente tear que há anos lhe auxiliava na  confecção dos tecidos e tramas, delicados tecidos que secretamente  carregavam também a história das pessoas que os encomendavam; que  suportou sua violência no dia em que, enervada, arrancou o manto  abruptamente de suas hastes. – Sentada de frente para o tear,  tranquilamente esticou os fios pelos ganchos formando a urdidura,  arrumou as barras e as lançadeiras. Olhava concentrada, solene, como se  estivesse pronta para um discurso. Passou os dedos levemente sobre as  linhas negras que se dispunham verticalmente como se tocasse uma harpa.  Respirou por algum tempo, lenta, mas profundamente, como a garantir que a  náusea não voltasse. E começou.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Com  as lançadeiras entrelaçando a trama da urdidura, barras em  sobe-e-desce, os primeiros centímetros do tecido iam se fazendo. À sua  mente lhe voltavam com nitidez toda uma compilação de bons momentos  compartilhados com ele. Os olhos marejavam e escorriam a cada piscada,  num choro sem soluços. Ele não quis lhe escutar e a isso ela acreditava  jamais conseguir perdoar. Ela que mesmo tendo tido a iniciativa de  afastar-se dele – exaurida de injúrias, descrente – havia deixado as  portas abertas, porque sabia que ele em alguns momentos precisaria lhe  falar. Aquele homem que apesar de grande e hirsuto ainda tinha em si  muito do garotinho que outrora fora.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;E  ele veio algumas vezes, principalmente à noite.&amp;nbsp; Ela quase sempre o  recebia mais mãe que amante. O ouvia, atendia alguns de seus pedidos,  recusava outros. Poucos foram os momentos em que se viu obrigada a ser  rude ou perdeu a paciência. Esperou estoicamente que ele lhe desse  quaisquer indícios de que realmente ainda havia amor, que sua  insistência e choro não eram mero capricho de posse. Ele não sabia lutar por  ela. – Ela que não necessariamente esperava que ele empreendesse alguma  luta, mas que em algum canto de si sabia que se fosse tomada a força em  seus braços, reivindicada, talvez reconhecesse o que antes ele podia  ser e renovasse as certezas de seu amor. Ela precisava de tantas coisas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Em  épocas antes de conhecê-lo havia sido mortalmente ferida em seus  sentimentos. Por isso julgava ser uma pessoa estragada. Ele havia sido o  único que conseguira tirá-la da indolência em que por muito tempo  esteve mergulhada. Mas no último ano ele mesmo fora responsável por  fazê-la sentir toda uma sorte de coisas ruins que a custo havia  esquecido. No entanto, breves dias de separação, curtas experiências com  outros a quem ela precisou aplacar as febres do corpo, impossíveis  cruzares de destinos e manhãs de silêncio bastaram para que ela em  maravilhosa boa nova descobrisse que seu tempo havia chegado; que  definitivamente não era a pessoa estragada que julgava ser – mas  machucada, e que seu frescor havia retornado, lhe curando. Foi por isso  que, mesmo incerta sobre se ainda dariam certo, se mesmo o amor que  tinha por ele ainda era suficiente, ela quis procurá-lo. Seria preciso  tentar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Encontrou-o  junto de outra, estranha, longe do que ela pensava ser o tipo de mulher  que ele desejava. Mas não se importara, afinal, sabia que ele também  precisava aplacar seus desejos. Havia ido lá por algo maior que julgava  haver ainda entre os dois – tantas foram as promessas, tantas foram as  juras. Tanto era o que ela planejava para os dois agora que sabia que  podia ser-lhe completa. Não podia entregar este amor a outro. Era dele,  era para ele. Porém, ele não quis lhe ouvir. Ela insistiu, em corajosa  submissão, pois em nome do que reconhecia poder amá-lo nessa retomada de  si, valeria a pena. Mas ele não quis lhe ouvir.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Ela  ainda continuou a dormir com as portas abertas por algum tempo,  acreditando que ele pudesse vir, que, em nome dos anos que viveram, ele  ao menos estivesse curioso em saber o que ela tinha para lhe dizer. –  Não iria lhe obrigar a nada. Não conseguiria obrigá-lo a nada. O que ela  tinha para ele jamais poderia ser por obrigação. Contudo, precisava lhe  fazer saber. Mas ele nunca lhe quis ouvir, sobretudo porque estava com a  tal estranha não apenas para amenizar seus desejos; era para ela que  agora ele fazia suas juras, era para ela que agora ele dedicava o seu  amor. E para si só lhe restou engolir tudo de volta. – O que lhe  revirava todos os dias o estômago e lhe punha em contrações diárias de  vômito. Mas agora, com o tecido roçando em seus dedos, alongando-se com o  trabalho de suas mãos, ela percebia que poderia deixar ali nas vagas da  urdidura, enlaçados com a linha guiada pelas lançadeiras. De alguma  forma sentia-se mais leve.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Lembrou-se  que haviam lhe contado que em alguma parte do mundo pessoas acreditavam  em três deusas, como ela, fiandeiras: uma muito velha, guarda o passado  sempre olhando para trás por sobre os ombros; a outra, uma jovem mãe,  responsável pelo presente; a última, uma virgem encarapuçada, que  carrega um pergaminho com os segredos do futuro.&amp;nbsp; Em silêncio e sem fé,  pedia-lhes por si: à velha, que não olhasse tanto para trás; à mãe, que  lhe embalasse e alimentasse; à virgem, que deixasse que o tempo sempre  viesse. O sol chegou sem ser percebido. A tarde estava prestes a tomar o  lugar da manhã quando ela finalmente terminou de tecer.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Embora  não tanto quanto o anterior, o novo manto também era longo, mais grosso  e pesado. Depois de um novo banho e de alimentar-se, ainda nua ela  envolveu-se nele e deixou-se cair na cama, de puro esgotamento, num sono  profundo, sem sonhos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Não  demorou muito o inverno chegou. E com ele o frio que aumentava suas  saudades, os pedidos de seu corpo que ainda o desejava e a solidão.  Recebia algumas visitas rápidas. Nunca saía. Agora sentia mais fome, se  alimentava com caldos fortes e quentes, com carnes, peixes e sempre  tinha pão. As noites eram irregulares: algumas conseguia dormir, outras,  atravessava em claro, sentada, lutando com seus pensamentos. As náuseas  haviam diminuído, mas ainda lhe incomodavam em algumas recaídas que lhe  acometiam e parecia que ia desesperar. Fazia muito frio.&amp;nbsp; Então  aninhava-se no manto negro.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;..............................................................................................................................................................................................&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Em  uma manhã, através de frestas da janela, o sol incidiu forte em seu  corpo seminu, abandonado no remexer da noite da coberta escura. O calor,  embora suave, lhe fez despertar e a primeira coisa que ela viu foram  borboletas que ziguezagueavam dentro do quarto. Depois de duas noites  povoada de sonhos ruins, nessa última havia dormido bem, mas não sabia  responder a si mesma como se sentia naquele instante. Levantou-se. Bebeu  um pouco de água da jarra da cozinha, lavou o rosto e abriu a porta da  frente, sumariamente vestida como estava. As nuvens estavam bem  dispersas, mas parecia ter chovido na madrugada. O cheiro de terra  molhada misturado ao do húmus confirmavam a primavera que se abria. Era  notável a quantidade de flores que se destacavam com suas diversas cores  no verde das pastagens. Ela desceu do batente de pedra, pisou os pés  descalços na grama e pôs-se a caminhar ao redor da casa.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12px;"&gt;Naquela  nova primavera as ovelhas estavam cobertas de lã. Os algodoeiros  estavam brancos, brancos, esperando serem colhidos. As linhaças estavam  agora gordas de fibras. E em algum lugar, decerto não longe dali,  amoreiras nutriam com suas folhas larvas que em breve formariam casulos  repletos de fios de seda.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-5455540650946196358?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/5455540650946196358/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=5455540650946196358&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/5455540650946196358'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/5455540650946196358'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2010/08/o-manto-e-longo-fazenda-e-pesada-cheia.html' title='TECENDO O LUTO'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-54061653760102166</id><published>2010-06-16T20:58:00.005-03:00</published><updated>2010-06-17T09:04:33.775-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='luto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pulsações'/><title type='text'>PARA JOSEILDO AUSENTE</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;em&gt;(...) você ausentou-se. Para outra vida? &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;em&gt;A vida é uma só. A sua continua &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;em&gt;Na vida que você viveu.&lt;/em&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;(Manuel Bandeira)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;Anunciaram seu triste e derradeiro ato. Meus olhos (de relance – quero só os teus sorrisos na lembrança), meus ouvidos testemunharam: A alma profunda, ainda não. Por isso não sinto agora a sua falta. Mas sei bem que ela virá (o Tempo é insistente). Vai ser assim: toda vez que tiver novidades vou querer te ligar, como era tão certo fazer – você rindo e dizendo adorar minhas histórias malucas – mas o telefone não atenderá mais. Virei ao Recife, você não virá me ver. Ainda não sinto sua falta, meu amigo (é sempre assim quando o ausente parte sem se despedir: você não se despediu, e nem disse a mim nem a ninguém os seus exatos motivos); mas irei ao Cinema da Fundação, sentarei para um café e facilmente me virá à mente aquele dia em que fomos para lá e eu insistentemente lhe repetia o quando você estava bonito com aquele cabelo e aquela barba. Alguém me perguntará em que estou pensando, sorrirei sem dizer que em você, profundamente. &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;Você não se despediu, mas muita gente esteve lá para te dizer adeus, para te chorar, esperançosas de uma explicação. Você não disse nada a ninguém. Quem te decepcionou? Sei que o que te angustiava eu provavelmente não pudesse resolver, mas imagino que cada passo que você deu na longa distância que percorreu até chegar em casa fez sua agonia retumbar cada vez mais alto. E pelo menos nisso, meu caro, qualquer um de nós que te amamos estaríamos dispostos e poderíamos de alguma forma resolver. Não tenho carro, mas você poderia ter ligado para que eu te ajudasse a chegar em casa.&amp;nbsp;Imagino teus pés cansados... você que se dizia&amp;nbsp;cansado de esperar o que se vê nos filmes e livros. Sua vida não era só sua, nós que te amamos também éramos donos dela. Mas não te repreenderei. Todos nós temos direito de desistir e de gritar. O teu grito foi ouvido por aqueles que te ofenderam, eu tenho certeza. &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;Há muitas flores onde escolheram para te devolver à Terra, árvores também. Bonito o local. Chovia, porque todos nós não daríamos conta de chorar a dor do momento. Sua mãe não quis guarda-chuva – entendo ela que precisava banhar-se nas grandes águas de que fala a Hilda Hilst. Mas sua cunhada levava o guarda-chuva colorido que Guigui lhe deixou e com o qual você tirou fotos lindas na Sé. Ainda te choro e não tentarei me conter até que chore tudo o que tiver de chorar. No entanto me conforta lembrar da última vez que nos vimos: quando nos despedimos te dei um beijo enquanto te abraçava e disse: te amo, meu amigo Joseildo. Era a mais pura verdade, você, sensível, eu sei que acreditava. Por isso não sinto agora a sua falta...&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none; clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_LRuboLhN3e4/TBoB0iebh-I/AAAAAAAAARk/YK3qRLydyL4/s1600/joseildo.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="480" qu="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_LRuboLhN3e4/TBoB0iebh-I/AAAAAAAAARk/YK3qRLydyL4/s640/joseildo.jpg" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-54061653760102166?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/54061653760102166/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=54061653760102166&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/54061653760102166'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/54061653760102166'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2010/06/para-joseildo-ausente.html' title='PARA JOSEILDO AUSENTE'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_LRuboLhN3e4/TBoB0iebh-I/AAAAAAAAARk/YK3qRLydyL4/s72-c/joseildo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-8399681624842414463</id><published>2010-03-16T22:44:00.006-03:00</published><updated>2010-03-17T06:25:24.147-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pulsações'/><title type='text'>PRESENTES QUE SALVAM</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ah, por que este mundo é tão grande e Paris fica tão longe? Por que o serviço dos correios neste país é tão ruim? Para que um carnaval no meio disso tudo só para atrapalhar ainda mais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, somente hoje, chegou aqui em casa um presente de aniversário que um amigo muitíssimo querido me enviou – como atesta a data de carimbo de postagem – desde o dia oito de fevereiro lá de Paris, onde ele tem vivido há algum tempo. Quatro dias eram o bastante para um avião, um carro e um carteiro, todos correndo, me trazerem o pacote que, se houvesse chegado naquele dia doze, teria me salvado desse que foi o aniversário mais infeliz que já tive na vida.  Quatro dias bastavam! Mas só hoje chegou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada materialmente caro ou raro continha o embrulho: uma carta, três cartões postais, um marcador de livro, um chaveiro com formato da França, uma bandeirinha francesa, três latinhas de balas e um pequeno realejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois foi esse realejo, uma caixinha cilíndrica com um delicado mecanismo à corda, o que primeiro me saltou aos olhos em meio àqueles despretensiosos tesouros. Girei a manivelinha sem saber que música tocaria e, para minha surpresa, com a doçura que somente um realejo pode imprimir a uma música já tão doce, escuto La Valse D’amellie. Naquele exato momento eu  me transformei no próprio Dominique Bredoteau abrindo sua caixinha. Para onde fui transportado? Não sei dizer. Não foram momentos bem específicos. Era somente sentimento. Emoções dessas que não se acabam; que estão sempre a repercutir basta que qualquer centelha de passado as evoquem. O que é suficiente, pois quero que permaneça em mim essa capacidade de sentir e me emocionar independente de épocas e pessoas – toda essa intransitividade. Chorei de pura beleza, e, cada vez que giro a pequena manivela, volto a chorar. É doce e melancólica a música, sobretudo assim em realejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas das latinhas de balas são sabor rosa a outra é de menta. Abri uma das de rosa e provei: é como se cheirássemos exageradamente as pétalas da flor e o cheiro errasse o caminho dos pulmões e fosse para o estômago. Então você floresce por dentro por alguns instantes. E enquanto duram tais instantes me sinto consolado pela antiga e inconsolável frustração de um dia terem me impedido de colher uma rosa que nasceu de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A carta que ele escreveu diz assim: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;“Meu Ruivo Lindo, Pensei em te mandar um pouco do mundo, para ver se te encorajo a me visitar. Sim, um presente com&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt; segundas intenções! Um pouco de Paris, de Bruxelas e Amsterdam, três lugares que com certeza você iria gostar muito de visitar. Mas pros teus 28 anos não te desejo somente um pouco do mundo, desejo ele inteirinho para você. E que ele venha cheio de poesia! Te amo. Manoel Júnior”&lt;/span&gt;. Dois postais são de Amsterdam e o outro de Bruxelas. Num dos de Amsterdam, com a imagem de uma tela de Van Gogh, ele disse assim: “&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Lembrar de você em A&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;msterdam é algo inevitável. A palavra ‘liberdade’ ganha um novo conceito nessa cidade e os museus têm algo de mágico, inexplicável. Liberdade + Magia = Filipe Bezerra.”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Júnior, meu amarelo, você que é tão valioso quando essa cor, nem a melancolia que a vida, ingrata que é, lhe deu consegue encobrir o quanto você resplandece nesse tom. Seu presente, embora tenha chegado tarde demais para me salvar do dia que o motivou, me trouxe, assim como a caixinha do Dominique Bredoteau trouxe para ele, a vontade de ser melhor para mim mesmo. Vontade de retomar coisas que eu havia deixado de lado para tentar viver uma outra vida que tenho entendido cada vez mais não ser para mim. Temos aprendido tanto, não é mesmo, meu amigo? E é lamentável que o conhecimento não traga felicidade. Mas estamos cada vez mais preparados. Seu presente não foi o único que me chegou atrasado. Afonso também só recentemente me deu um livro de poemas da Hilda Hilst. Na dedicatória assim ele escreveu: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;“Deus existe... na poesia”&lt;/span&gt;. Sim, Afonso que sempre tem razão está novamente certo. É na poesia que Deus pode existir na forma como eu fui feito para crer nele. Que o mundo venha até nós repleto de poesia. Que o Deus que nela habita nos abençoe e nos guie. Estamos cada vez mais preparados.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://b.imagehost.org/0964/DSC08079_copy.png"&gt;&lt;img style="cursor: pointer; width: 566px; height: 436px;" src="http://b.imagehost.org/0964/DSC08079_copy.png" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-8399681624842414463?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/8399681624842414463/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=8399681624842414463&amp;isPopup=true' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/8399681624842414463'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/8399681624842414463'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2010/03/presentes-que-salvam.html' title='PRESENTES QUE SALVAM'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-1975171311174156738</id><published>2010-02-21T17:39:00.020-03:00</published><updated>2010-02-21T20:39:18.569-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>PIERROT</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;(crônica elegíaca de carnaval com versos emprestados do Carnaval de Manuel Bandeira)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;– O meu Carnaval sem nenhuma alegria!...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;(Manuel Bandeira)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://f.imagehost.org/0086/pierrot_copy.png"&gt;&lt;img style="float: right; margin: 0pt 0pt 10px 10px; cursor: pointer; width: 253px; height: 327px;" src="http://f.imagehost.org/0086/pierrot_copy.png" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Pois é, todos os caminhos levam à Roma. Por isso não se enganem aqueles que acham que podem mudar desfecho de uma história ambientada na Itália. A Literatura, o Cinema e o Teatro até hoje tentam um outro fim para Romeu e Julieta. Mas, vos pergunto: se se pode chamar Romeu e Julieta a tragédia em que o rapaz, ao encontrar sua amada desacordada, não bebe o resto do veneno; e a moça, ao ver morto o rapaz, não atravessa o ventre com a espada dele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo os escolarizados na Comédia Dell’arte – quase sem texto, tão dada ao improviso – percorrem o mais variados percursos, embaralham a trama, criam inúmeras peripérciais, mas não têm como fugir: no carnaval, o Pierrot, no fim, chorará por não ficar com o amor da Colombina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu – eu! –, que como o Bandeira, quis imitar Schumann e fazer um carnaval cheio de amor, tentei dar ao sonhador Pierrot um carnaval em que a quarta-feira não tivesse cor e sabor de cinza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou assim: o Pierrot, que já conhecia a Colombina de outros carnavais, estava como quase sempre está, triste, pois a Colombina, teimosa e ciumenta que é, vinha o maltratando, fazendo o pobre sofrer de remorso por ter aceitado uns beijos de uma outra moça que o quis consolar nuns dias em que, num assomo de amor-próprio, resolveu tentar não mais saber da Colombina que andava muito caprichosa e briguenta com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quem disse que ele conseguiu?&lt;span style="font-style: italic;"&gt; De Colombina o infantil borzeguim Pierrot aperta a chorar de saudade.&lt;/span&gt; Não foi por ser bobo ou gostar de sofrer. É que o coitado ama de verdade e não tem mágoa que não passe quando se ama assim. Então, naquele carnaval, todo desejoso de ser feliz, nem pôs na cara alvaiade, nem carmim, nem lágrima. Vestiu seu traje inconsútil e e&lt;span style="font-style: italic;"&gt;ntre a turba grosseira e fútil&lt;/span&gt; passou a procurar a amada para lhe dizer coisas de amor, pedir desculpas sem ter culpa e depois seus beijos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um céu estrelado explodia resquícios de saudades...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não a encontrava. Quem viu a Colombina, quem viu? E a alegria alheia das misteriosas máscaras, o torvelinho das serpentinas e as marchinhas nostálgicas faziam as ruas e pontes de Veneza parecerem um letargo insano e exaustivo. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O seu delírio manso agrupa atrás dele os maus e basbaques. Este o indigita, este outro o apupa... Indiferente a tais ataques&lt;/span&gt; ele seguia de coração cheio de esperança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que, oh!, Pierrot, me desculpe não ter conseguido, sou mesmo um péssimo escritor: lá estava a Colombina beijando o Arlequim. De peito estraçalhado o Pierrot acena chamando a Colombina pro canto. O Arlequim percebe e dele ri. Ela vem melindrosa, vingativa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que queres tu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Torna o meu leito, Colombina! Não procures em outros braços os requintes em que se afina a volúpia dos meus abraços. Os atletas poderão dar-te o amor próximo das sevícias... Só eu possuo a ingênua arte das indefiníveis carícias... Meus magros dedos dissolutos conhecem todos os afagos para os teus olhos sempre enxutos mudar em dois brumosos lagos...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Colombina, insensível, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;se lhe dá, lesta, à socapa, em vez de um beijo, um tapa.&lt;/span&gt; E por um tempo lá fica ele, vendo-a para lá e para cá, de braços dados ao Arlequim que ainda ria, como se não o visse, como se não o conhecesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Hoje aminh’alma sombria é como um poço de lástimas...&lt;/span&gt;, chorava o Pierrot pierrotado, resignado em se convencer que, ainda que não fosse de pintura, seu rosto era lugar de lágrima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span&gt;E&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt; entre a turba grosseira e fútil um Pierrot doloroso passa. Veste-o uma túnica inconsútil feita de sonho e de desgraça... Nublada a vista em pranto inútil, dolorosamente ele passa. Veste-o uma túnica inconsútil, feita de sonho e de desgraça...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-1975171311174156738?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/1975171311174156738/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=1975171311174156738&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/1975171311174156738'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/1975171311174156738'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2010/02/pierrot-e-colombina.html' title='PIERROT'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-4033182066968167891</id><published>2010-02-06T01:18:00.011-03:00</published><updated>2010-02-07T06:43:41.166-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pulsações'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>OPUS ODIU</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Quis esconder os meus dedos&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;nos teus cabelos de mágoa&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;mas tua mágoa era grande&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;para fugir no meu gesto.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;(Hilda Hilst)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;Ainda que se pudesse dizer: “em uma hora dessas a gente diz coisas da boca pra fora”, ele bem sabia que era sério. Não foi falado, foi escrito. “A fala voa, a escrita se arrasta”, lhe aconselhou uma vez uma antiga professora de linguística. A escrita se vale do tempo, ele entendia – pode-se pensar, avaliar, corrigir e então lançá-la para que ela depois atravesse o mundo e o próprio tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não tenho só raiva de você. Eu tenho ódio de você.” Era ódio sim. Ódio fecundo, porque quem havia lhe escrito ainda o amava. “Eu não tenho só raiva de você. Eu tenho ódio de você.” Ele releu mil vezes.  Era ódio sim. Jorrava grosso e frio. Forte porque havia amor. E facilmente distinguível: não era raiva, mera e passageira emoção, era ódio, sentimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” – seu pesadelo na noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava esgotado: havia, na véspera, feito um esforço tamanho tentando explicar: não fizera nada errado; havia sido sincero. E não fora nada fácil falar sobre os últimos acontecimentos da forma que contou. Importava-se sim. Sabia que o que contara era muito menos fácil de ouvir e isso também o feria. Mas não maculara nada, não profanara nada. A realidade era tão outra! E tivera de silenciar o que realmente gostaria de dizer – não houve nenhum contexto permissivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não merecia ódio. Mas disse a si mesmo naquela manhã, os olhos ainda de sono, vacilante, mas lúcido: aceito. Só rejeitaria, no entanto, a culpa da forma que lhe fora imposta. Pois em nenhum lugar de si a encontrava. Estaria preparado pra expiação se tal culpa houvesse. Mas não. Mesmo Deus ele já havia rejeitado, entre outras razões, para não mais sofrer culpas que não eram suas. Não mais permitiria que o que não lhe parecia consistente, nem passível de crença sã, lhe atormentasse com culpas ancestrais pelas quais ele não se sentia responsável. Não, Deus. – Deus, não. – Não sou culpado!, repetia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aceitou o ódio e este lhe recaiu como maldição. Sobretudo naqueles últimos dias de um ano tão morbidamente simbólico. Havia, em criança – fora da realidade que era –, criado, numa espécie de lenda pessoal, a crendice de que morreria aos vinte e sete anos. Era aquele ano e já o tivera quase inteiro para morrer, mas nada aconteceu. Agora, aqueles últimos dias que faltavam para provavelmente não morrer e, assim, sepultar em si qualquer resquício de medo que se tem na noite do que está sobre o natural, pareciam uma tormentosa contagem regressiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava com medo sim. Deus – ele assim preferiu dizer naquela noite que parecia assombrada –, Deus, seria mais fácil acreditar em vós se não tivessem vos obrigado a ser mais que Verbo! – Pois era na palavra que ele sentia fé, devoção, medo e angustiava-se com seu mistério. Palavra, palavra, és tu e somente tu que reúnes em si mesmo significado e significante. És Alfa e Omega. A ti eu uso para ter uma modesta existência e para fazer existir. Foi me valendo de ti que tentei abençoar e salvar o amor. Mas que sou eu? Tu não me revelas a que elucida. Enfraqueci porque naqueles tempos tu me entravas em formas duras, pesadas, cortantes e gélidas nos ouvidos. Baixaste o tom com que o amor falava nas bocas. Houve muitas, desnecessárias, desferidas como tiros em corpos mortos em guerra. E tu corrias de minha boca em formas igualmente horrendas, e eu pouco pude te reter porque sou só humano e tu bem sabes o que quer dizer “humano”. E agora me vens envenenada, mal dita, maldita. Vens como vômito. Vens para contaminar mesmo o que não escuta.  Estou como sujo de ti. E resignadamente aceito. Aceito porque espero que em breve tu te convertas em outras, vindas de onde quer que seja, na claridade ou escuridão, retumbantes ou em forma de murmúrio. Aceito porque entendo que as de ódio também são necessárias e não são exatamente antônimas das de amor. Compreendo que a cólera soe mais alta e abafe o que se entoa insistentemente, incomodando, sobretudo por ser a verdade intimamente preferida. Aceito todas de ódio que me vierem, mesmo as que firam meu corpo, porque uma morte pelo ódio acaba conferindo alguma santidade. Lembro-me que já tentei experimentar ativamente o ódio, mas tu me o negavas. Então aceito passivamente que agora ele recaia sobre mim. E no fim, quando eu já não puder mais, dá-me algum alívio.  Faze com que eu não me perca em todas as tuas possibilidades e variantes. Ensina-me a dizer. Explica-me o caminho. Dá-me as respostas que preciso. Dá-me os significados. Dá-me as de redenção. Dá-me as de salvação. Dá-me as de paz.  Deixai que eu possa ainda mais uma vez na vida dizer para alguém: eu te amo. Não me abandones. Preenche-me para que o silêncio não tome conta de minha vida e eu enlouqueça. Recebe-te de volta embotada de mim nestas orações. Amém.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-4033182066968167891?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/4033182066968167891/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=4033182066968167891&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/4033182066968167891'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/4033182066968167891'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2010/02/opus-odiu.html' title='OPUS ODIU'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-5514352813372176884</id><published>2009-08-23T23:59:00.007-03:00</published><updated>2009-10-04T16:03:19.143-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='achados e perdidos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pulsações'/><title type='text'>O SONHO (de minha mãe)</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hoje concluí um&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_LRuboLhN3e4/SsjxOSwkH5I/AAAAAAAAAPw/2UIJ05bCfpg/s1600-h/3233318016_9ee1dc76e2+copy.png"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 207px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_LRuboLhN3e4/SsjxOSwkH5I/AAAAAAAAAPw/2UIJ05bCfpg/s320/3233318016_9ee1dc76e2+copy.png" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5388822182004793234" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;a faxina geral que fiz em meu quarto que iniciei ontem. Tava mesmo precisando! Enquanto arrumava me vinha várias vezes à cabeça o mesmo pensamento: “como as coisas mudam”. Quantas vezes eu não já fizera a mesma coisa? E em cada uma das vezes, muita coisa era jogada fora e outras preservadas pela importância que tinham ou ante a previsão de que eu poderia precisar no futuro. E na arrumação seguinte, de meses depois, boa parte delas era jogada fora, preterida a outras. Ontem e hoje reencontrei com muitas coisas esquecidas e, como das outras vezes, algumas foram pro lixo, outras eu mantive. Mas uma dessas coisas, que nem efetivamente minha é, foi o que mais me chamou atenção: um texto da autoria de minha mãe. Aliás, o nome do texto é O Sonho. Eu havia achado esse seu texto quando ainda era criança, fuçando as coisas que ela jogava fora quando certo dia arrumava seu quarto e jogava coisas fora. Eu nem me interessava pela escrita como me interesso hoje. Mas guardei em segredo aquilo num envelope. E eis que hoje ele me reaparece. O papel envelhecido, amarelado, remendado com fita adesiva, o texto datilografado em máquina elétrica, no fim, à caneta, sua assinatura e a data: 12/12/1975. Ela nem sonhava em um dia me ter como filho. Mostrei para ela e ela disse que naquela época sonhava em ser escritora. O sonho de minha mãe acabou. Esse, o sonho do texto (que ela me assegurou ser mera ficção), outros que ela nunca me contou, mas sei que tinha sim. Em meu nome, em nome do meu irmão, com o fim de seu casamento, desapontada com a vida. Mas ela jura que ama viver e  que é feliz. Minha mãe é uma das pessoas mais fortes que eu conheço.  Ela, ao que parece, tinha talento sim, não devia ter deixado esse sonho passar, precisava só amadurecer. Vejam:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;O SONHO&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Há uma luz terna dentro do quarto. Alguns objetos simples, duas camas, a minha e a da minha irmã mais nova, um armário já usado, cartazes na parede dando um aspecto de decoração antiga. Isso mesmo, tudo lá é velho, com a saudade e as recordações. Comecei a despertar, mas era um despertar triste e vazio, durante todo o sonho passei despercebida como se fosse um animal que sai sempre por aí sem rumo. Andei entre aquela multidão. Na minha frente somente ruas desconhecidas e difíceis de atravessar, pois o trânsito era enorme, pessoas olhavam para mim como se olha para uma criança, dessas que não nos atraem. Para todos eu olhava procurando um gesto de reconhecimento, porque naquele momento eu estava perdida. Não totalmente, porque procurava alguém, alguém que não sei quem é. Em cada rua que passava tudo se tornava mais difícil. As pessoas continuavam com o semblante rígido e eu, mais triste do que nunca, continuava o meu tormento. Procurei em todos os cantos o alguém que procurava, sem ter pista certa. De repente vi alguém parecido. Segui às pressas, por cima de tudo. Alcancei, mas a decepção foi total, pois quando olhei o rosto, era muito diferente do que eu pensava. Nisso o cansaço tomava conta de mim. Minhas pernas pareciam estar sendo picadas por milhares de insetos e os olhos ardiam tanto que os fechava de vez em quando. Nunca me senti tão desesperada em minha vida. Tenho a impressão que adormeci em algum lugar daquela cidade desconhecida, sob a sombra de uma árvore, depois saí sem esperança alguma. Na frente avistei uma multidão. Algo estava acontecendo. Sem saber mais o que fazer saí para lá.  O porquê não sei, só sei que algo me empurrava e eu seguia muito fraca, com as pernas bambas. Quando me aproximei senti uns olhos me fitando tanto que enfraqueci mais ainda. Depois recobrei os sentidos e compreendi que aqueles olhos pertenciam à pessoa que eu tanto procurava. Olhei para ele e não senti mais o mesmo olhar de antes. O olhar era agora compreensivo. Então não vi mais nada. Somente algo forte soava em meus ouvidos. Era a voz do desconhecido a quem eu procurava. Era uma voz suave e distante, que ficou muitos dias ecoando no meu cérebro. Depois ouvi uma música também diferente, como se fosse tocada por instrumentos não conhecidos. Foi a música mais linda que ouvi durante um tempo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;O despertar real foi triste. Senti muito quando acordei. Apesar de ter sofrido muito com a indiferença das pessoas, eu entristeci pois talvez aquele sonho tenha sido um momento muito importante na minha vida. Ainda hoje recordo aquele olhar, cheio de ternura e compreensão. Fico triste em saber que nunca mais vou ver aqueles olhos maravilhosos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(Eliete Bezerra)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-5514352813372176884?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/5514352813372176884/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=5514352813372176884&amp;isPopup=true' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/5514352813372176884'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/5514352813372176884'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2009/08/o-sonho-de-minha-mae.html' title='O SONHO (de minha mãe)'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_LRuboLhN3e4/SsjxOSwkH5I/AAAAAAAAAPw/2UIJ05bCfpg/s72-c/3233318016_9ee1dc76e2+copy.png' height='72' width='72'/><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-2922998207918053834</id><published>2009-08-08T19:31:00.012-03:00</published><updated>2009-08-13T14:29:23.558-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='reminiscências'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>A ALUNA</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ela era feia. Nenhum atrativo no corpo magro e franzino. E o rosto, como se não bastasse a ausência de beleza, denunciava, como é comum nas pessoas que assim o são, a leve demência que tinha. E  era exatamente esse desconcerto de vida o que lhe dava a única graça que possuía. Era de uma simpatia insistente, parecia que nada era capaz de lhe irritar ou deixar de mau humor. Seus dentes, cheios de ferros do aparelho que usava, estavam quase sempre à mostra no sorriso que ela dava tantas vezes até ao nada. Sobretudo na escola, onde seu sorriso fazia coro com riso dos colegas de sala que, com crueldade típica da juventude, não davam nenhum desconto ao seu jeito de ser e constantemente caçoavam dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela tinha vinte anos e estudava o primeiro ano do normal médio. Queria ser professrora. Cheia de dificuldades com a maior parte das matérias – os colegas asseguravam, no entanto, que ela era boa em matemática, o que não é de se espantar, afinal, a matemática, embora ciência exata, precisa de todo o campo fértil da abstração, coisa tão simples para quem não está tão resignado ao que somente pode fazer sentido –, cheia de dificuldades, tentando sofridamente prestar atenção em tudo com seus olhos pequenos que ela espremia pra ouvir, já havia repetido de ano algumas vezes e, em outros, passou com a facilidade que alguns professores promoveram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na certa seria o que também acabaria por fazer aquele professor do primeiro ano. Muito embora ele, apesar de jamais conseguir ser hostil com ela, se impacientava facilmente com seu jeito. Às vezes ela enfiava a cara até onde podia nos basculantes de outras salas onde ele dava aula e, quando ele olhava em sua direção, toda carinhosa dizia: “querido professor, tudo bem?” ou “oi, meu professorzinho”, o que ao mesmo tempo em que lhe deixava consideravelmente irritado e constrangido, lhe impedia qualquer grosseria. Ele fazia o que podia para não interagir com ela, se sentia mesmo agradecido quando ela o esquecia, mas não conseguia não lhe chamar a atenção ou perguntar se ela estava mesmo entendendo quando ficava olhando fixamente pra ele, para a lousa ou para o nada, na hora da aula, com cara de perdida e a boca entreaberta. Tô entendendo tudo, professor, é que to com preguiça. E ria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era uma pessoa amarga esse professor. Era bem jovem naquela época; a vida ainda teria muitas oportunidades de lhe machucar. Mas era precisamente por já saber que a vida, de uma maneira geral, não é boa, que ele há muito aprendeu a desconfiar do gratuito, do riso constante, das pessoas efusivas, dos amigos instantâneos, do “eu te amo” ladainha. Mantinha-se distante e superior a pessoas fáceis assim.  Era de poucos amigos e com eles tinha alegrias esporádicas mas verdadeiras e profundas. Tinha um amor também; viviam em cidades diferentes, mas sempre quando dava se viam e era amor mesmo quando não se dizia. A felicidade verdadeira é o conjunto todo do de quando em vez, sim?  Não era amargo esse professor, quase nunca deixava escapar uma oportunidade de estar feliz, para justamente dar o troco à vida, porque a ela ele não perdoava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a aluna? A aluna não estava entre as pessoas fáceis, a aluna não era gratuita. A aluna sorria como se necessitasse, como se fosse sorrindo que ela respirasse, mas era um sorriso, e, conseqüentemente, acompanhado de todo o benfazejo que ele faz ao corpo e à alma. Ela era feliz, era feliz o tempo todo, mesmo quando parecia melancólica e inclinava um pouco a cabeça, de boca fechada, piscando os olhos às vezes muito rapidamente, como se tivesse um cisco neles, mas daí bastava alguém perguntar o que tinha que ela botava os dentes metalizados pra fora e começava a falar toda solícita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O professor não sabia de onde vinha essa irritação que lhe tomava quando ela lhe dirigia a palavra ou quando ela se aproximava. Na verdade ele não entendia que se sentia, de certa maneira, rebaixado quando perto dela. – Ele, sadio que sempre foi, sabedor de muitas coisas que se esforçou para saber, com sua cota de beleza, com seus cabelos cacheados e ruivos recebedor de elogios, com o respeito que tinha, era apenas normal, comum. Ela era a confirmação de que uma outra coisa era possível, de que uma outra forma de vida existia e que não era preciso estar tão distante deste mundo. Ela podia ser feliz o tempo todo, mesmo que lhe explicassem pormenorizadamente que lhe faziam sofrer. Não era inocente. Ela conseguiria entender. Mas não se importava. Continuaria rindo sinceramente. Se alguém lhe provasse que ela era feia e que ninguém a quereria, continuaria feia sem verdadeiramente se importar, sem nenhuma vaidade, de cabelos sempre presos e cheios de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;frizz&lt;/span&gt; como se os tivesse amarrado logo depois de acordar. Livre e sonhando em ser professora. Isso ofendia o professor, porque ainda que ele tivesse toda a compreensão disso, não estaria disposto a trocar sua vida segura e burguesa pela possibilidade  de ter uma como a dela. Teria medo, porque mesmo para ser livre ele precisava de portos seguros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E houve o dia em que ela, sem o menor esboço de aviso, abraçou subitamente o professor quando saia de uma das turmas. Ele ruborizou, testa e bochechas ardendo, invadido em seu espaço pessoal, constrangido. Todos ao redor olharam. Riram dela. Ele riu também, sem graça e a apertou sem muita força contra si. Ela saiu toda contente. Toda namorada. Toda filha. Toda irmã. Deu tempo dele ficar comovido com o gesto enquanto se dirigia à secretaria. Essa criatura vai mesmo com minha cara, ele pensou. Apesar dele não gostar dela. Ela sabia gostar dos outros sem a reciprocidade, o amor nela não era exigente, era amor sem antônimos. Então ficou ofendido e procurou esquecer o que aconteceu. Mas sempre alerta quando ela estava por perto para fugir antes de outro abraço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No final do primeiro semestre, as provas. Era uma quarta-feira o dia da prova na sala dela. Ela chegou uns vinte minutos depois que o sinal havia tocado. Todos já estavam fazendo a prova. Ela entrou. Licença, professorzinho. Ele esticando a prova para ela: vá sentar na última cadeira dessa fila. E toda dramática, caricaturizando atriz de novela mexicana ela disse: ai, professor, aqui no fundão!? que humilhação. Todos riram, menos o professor: aí sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois daquela semana, férias. Então o professor, cansado que estava, queria se ver longe de tudo aquilo, sobretudo longe da escola, adiantou tudo o que pode, virou a noite corrigindo as provas na madrugada, entregou os resultados na quinta e viajou. Foi ver o seu amor. Foi se esquecer de um monte de coisa. Foi se divertir. Era bom estar desobrigado de tudo. Era bom não ser professor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas então se acabam as férias e se volta a ser professor, porque há um monte de gente do mundo que ainda não sabe.  E na hora da aula há chamada, porque se não os chamam, eles não vêm. Aí o professor chama o nome dela. Um aluno, todo jocoso, diz: essa daí foi transferida para outra vida. Os outros o repreenderam, o xingaram. O professor, sem muito acreditar, exige que façam silêncio. Uma aluna pergunta: o senhor não tava sabendo ainda? Ela morreu, professor, na sexta-feira daquela semana de prova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou atônito. O susto não era saber que ela havia morrido. O susto era que ela também podia morrer. Ele jamais havia lembrado. Era óbvio, claro, a gente morre, mas ela não era óbvia. Então contaram que ela há muito tinha o coração fraco. Que ela já chegou na escola, para o espanto de todos, se queixando de dores, de muita dor. Gritava. Pediu para ser levada para o hospital. Mas ainda assim ficou lá daquele jeito dela. Até morrer. Foi como descreveram. Contaram também que o pai dela era um homem severo, ríspido e lhe batia muito. O professor levou a mão para o campo de anotações no diário de sala. Ia escrever “falecida”, mas não conseguiu. Ficou alguns segundos perdido, olhando pra algum canto que não via. Quase se sentiu culpado por não ter gostado dela. Mas passou a página muito solene, como tornaria a fazer até o fim do ano, e chamou o nome seguinte.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-2922998207918053834?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/2922998207918053834/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=2922998207918053834&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/2922998207918053834'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/2922998207918053834'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2009/08/doida-mansa-e-feliz.html' title='A ALUNA'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-4857539837753710872</id><published>2009-04-26T23:10:00.002-03:00</published><updated>2009-04-27T00:08:38.025-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='reminiscências'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pulsações'/><title type='text'>NADA MAIS QUE A VERDADE</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right; font-style: italic;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Se então um menino vem ao encontro de vocês, se ele ri, se tem cabelos de ouro, se não responde quando interrogam, adivinharão quem é. Então, por favor, não me deixem tão triste: escrevam-me depressa que ele voltou...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;(O Pequeno Príncipe - Exupéry)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Às vezes sinto falta de meus tempos de criança. Não que eu ache que a infância tenha sido a aurora da minha vida, lamentando que os anos não a tragam mais. Estou mais para Hesse, que acredita que para trás não conduz a nenhum caminho, que nem mesmo as crianças são felizes e sim suscetíveis de muitos conflitos, de muitas desarmonias, de todos os sofrimentos. Sinto falta talvez por aquele tempo ser época em que, mesmo antes de me ser negado todo tipo de conhecimento, eu era realmente pequeno demais para compreender. Pois dentro de minha vontade grande de saber de todas as verdades, é só o não-entender que, ainda que momentaneamente, me conforma. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;Fui, durante considerável tempo, criança trancada em casa com babá, porque meus pais saiam para trabalhar. A diferença de idade entre mim e meu irmão era, então, considerável para que ele fosse companhia em minhas brincadeiras. Recebia muito poucas vezes visita de amiguinhos em casa. Então meus brinquedos — que não posso me queixar, eram muitos —, em sua maioria, eram de brincar só mesmo. Tinha muitas peças de LEGO, criava vários robôs, carros e ambientes; lembro de uma série LEGO de tela para se construir desenhos com as pecinhas mais finas, acho que produzi desenhos suficientes para toda uma exposição. Também tinha a massinha pra modelar — eu era muito orgulhoso de mim com a superioridade de minhas esculturas, que quando feitas na escola, impressionavam os outros meninos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;Por ser ruivo, foi em criança que descobri que se paga um preço por ser diferente: na escola tinha vários apelidos hostis por conta de meus cabelos. Me zangava, as vezes queria brigar, mas eu era realmente o único de cabelos laranja ali, o que me restava senão achar que a culpa era mesmo minha? &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;Meus pais só se separaram quando eu já tinha onze anos, mas desde que me conheci, também tive que aprender a lidar com a falta de ter um pai. Não sei até onde ele tem culpa nisso. Afinal, se por um lado não há escola para essas coisas; por outro, há os que não aprendem nunca. Há fotos minhas bebê em seu colo, onde ele parece bastante alegre e orgulhoso do filho. Mas depois que tive idade suficiente pra reter lembranças na memória, ele nunca soube ser afetuoso. No entanto, me lembro com total clareza de dois momentos em que houve a tentativa. — Eu devia ter cinco ou seis anos, era cedinho e meu aniversário; acordei com o levíssimo rumor que ele fez ao entrar no meu quarto para pôr sobre os meus chinelinhos um trem elétrico que tenho até hoje. Não sei explicar. Não me lembro. Sei que fingi que ainda dormia e suportei firmemente a minha curiosidade em saber o que era que havia naquela caixona até a hora em que eu costumava acordar. Ao acordar, fiz toda a festa com o brinquedo novo. Lembro de minha mãe fingindo surpresa, me beijando, dizendo ser lindo o trenzinho, lembro de Maninho, um vizinho mais velho, vir me ajudar a montar pela primeira vez os trilhos, mas não lembro de qualquer gesto de meu pai. Numa outra vez, quando podaram as árvores dos canteiros que separam os sentidos mão e contra-mão da avenida que morávamos, a moda entre os meninos da rua com quem eu raramente brincava, era fazer arco e flecha com os galhos cortados. Meu pai, ao ver o quão era mal feito o que eu tinha construído para mim, pegou galhos e, lá no quintal, com uma faca, fez um arco fabuloso pra mim, bem resistente e flechas retinhas, lisas, sem casca da madeira. Fiquei tão orgulhoso! Fui brincar com os meninos. Mas não durou muito. Um deles, maior que eu, tinha um canivete e me convenceu de que eu devia deixá-lo apontar as flechas para que elas ficassem como as de índio de verdade. Eu não pude ir à casa dele com os outros meninos para vê-lo executar o favor. Quando eles voltaram, me disseram que na tentativa de apontar, as flechas quebraram, uma a uma. No início, bobo que eu era, acreditei, nem me zanguei com eles. Depois é que vi que eles quebraram tudo com inveja ou sadismo. E dos dois carinhos de meu pai em épocas que podiam me ficar na memória, só me resta o trenzinho que não sei mais montar. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;Acho que de alguma forma foi essa solidão de criança que me fez aguçar a imaginação e criatividade. Pois não me lembro de naqueles tempos de ter consciência de não compreender algo. Não me era preciso muito para adivinhar as respostas. Eu explicava, por exemplo, que os raios e os trovões eram o resultado de uma nuvem se chocando com a outra, como quando batemos duas pedras e sai barulho e faísca. Eu achava que nuvem era gelo flutuando e que a chuva era esse mesmo gelo derretendo. Mas não me ocorria pensar em como um raio de fogo podia sair de duas pedras de gelo enorme se chocando. Pensar nisso pra quê? “Aleluia” era uma panela que ficava sempre em cima do fogão com leite. Achava que jornalistas de TV eram meio maus quando em notícia de desastre eles diziam: “morreram &lt;span style="font-style: italic;"&gt;pelo menos&lt;/span&gt; dez pessoas”. E dez pessoas já não é muito?, eu pensava. Ainda sobre morrer, eu, criança do interior, ouvia o carro de som noticiar o falecimento de alguém e sempre no fim da nota o homem dizia: “a família desde já agradece a todos que comparecerem a este ato de fé e solidariedade cristã”. Daí eu lamentava: como morre gente nessa família Desdejá, meu deus! Quando ouvi pela primeira vez falarem de dengue e que pra evitá-la não podíamos deixar recipientes com água parada, se tivesse que beber água aos poucos, enquanto conversava com alguém, por exemplo, sempre dava um jeito de ficar chacoalhando um pouquinho o copo para a água não parar e eu pegar dengue. Uma vez meu tio, que morava numa casa perto de uns terrenos com muitas plantas e entulhos, trouxe pra casa um escorpião num vidrinho de maionese. Fique atordoado com aquele bicho e com o que ouvi sobre ele, que podia morrer de uma febre provocada pela ferroada. Pouco depois nos mudamos pra uma casa que na rua paralela tinha muito matagal, então morria de secreto medo de escorpião e mesmo em tempos de calor, pedia a minha mãe, que ficava sem nada entender, pra que me deixasse dormir com um cobertor grossíssimo que ela tinha. Uma prima me contou sobre o Negro D’água, uma lenda do rio São Francisco, que ele saía da água depois do crepúsculo e levava a gente pro fundo do rio. Daí eu passei a ter medo até da água da privada depois que o sol descia. Essa mesma prima me contou da Comadre Florzinha, que fazia todo mundo que invocasse seu nome no meio da mata se perder e ainda levava umas chicotadas. Só se safavam aqueles que carregavam fumo de rolo consigo. Eu, que nunca andava com fumo, ficava com medo de pensar na Comadre Florzinha até no jardim da casa de vovó, que era cheio de plantas. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;É engraçado relembrar dessas coisas, desses medos. Medos que eu só tinha porque as verdades que eu sabia naqueles anos eram limitadas demais e me permitiam. Não sei precisamente quando foi que comi o fruto do conhecimento do bem e do mal. Acho que porque em adulto iria me tornar ateu, nunca houve deus ou anjo pra me avisar do perigo que é. Mas agora estou fora do paraíso desses tantos seres possíveis, almas do outro mundo e da simples paz de me contentar com minhas próprias explicações e conclusões. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;Fui saindo sem ver. Sem sentir. Nunca tinha pensado nessas coisas; nunca tinha dado por minha transformação mesmo depois de já estar trabalhando, ganhando meu próprio dinheiro. Comecei por dar aulas a crianças e adolescentes. Julgava não ser tão considerável a diferença do meu espírito do deles. Até o dia que, como um amigo quer compartilhar uma leitura com outro, pedi a os meninos da sétima série que lessem O Pequeno Príncipe, livro que li e reli incontáveis vezes quando tinha a idade deles e até um pouco mais. Pedi, para começar, que eles, após lerem, respondessem a ficha de leitura que acompanhava a edição. Então resolvi reler a obra mais uma vez, depois de tanto tempo, para ter mais confiança na correção dos trabalhos. Foi um choque. Eu já não conseguia mais ver o elefante engolido pela cobra. Era difícil não ver ali um chapéu. Não conseguia ver além da caixa. Não conseguia ver o carneiro. E, no fim, quando ele diz que se acreditarmos que em algum lugar do céu há um planetinha e nele um menino com uma rosa e três vulcões, as estrelas serão guizos e se não acreditarmos, as estrelas serão só lágrimas, olhei pro céu e constatei que, há muito, as estrelas nem mais tinham o formato pentacular que eu costumava desenhar quando tentava pintar o horizonte. Não mais o formato da estrelinha da turma da Mônica, amarelinha, sorridente, que piscava da palma da mão e me enchia de emoção, apesar de ser um brinquedo tão estático. Nem tampouco podiam abrigar menino, rosa ou vulcões tão disciplinados. Eu chorei. Chorei muito trancado no banheiro. E foi meu último choro da criança que eu já não mais era.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;E agora? Bem, agora, na verdade, é somente a verdade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-4857539837753710872?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/4857539837753710872/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=4857539837753710872&amp;isPopup=true' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/4857539837753710872'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/4857539837753710872'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2009/04/nada-mais-que-verdade.html' title='NADA MAIS QUE A VERDADE'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-7956688010387613895</id><published>2009-02-12T00:15:00.001-03:00</published><updated>2009-02-12T13:00:50.593-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pulsações'/><title type='text'>DOZE DE FEVEREIRO DE DOIS MIL E NOVE</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E mais uma vez, desde quando foi inventada a contagem do tempo, é dia doze de fevereiro. E pela vigésima sétima vez, a contar de mil novecentos e oitenta e dois, é doze de fevereiro para mim, que nasci — ai de mim. É mais um ano que passa ou mais um por vir? Não sei. Então, humano que sou, fico a temer o desconhecido. Em pequeno, uma vez, me ocorreu: vou morrer quando tiver vinte e sete anos. Exatamente hoje eu posso dizer: eu já tive vinte e sete anos para morrer e não morri. Mas também hoje eu pergunto: a contagem agora é regressiva? Todo dia é dia para se morrer, a gente sabe. Mas, às vezes, a certeza da morte, que é a que dizem ser a única que se tem da vida, me acomete com impacto de novidade e, muito embora eu não tenha medo da morte mais do que tenho sentir dor em sua hora, fico fortemente angustiado com a dúvida: será que estou desperdiçando minha vida? Que estou repleto dela a ponto de não caber mais eu sei e sinto — tantas coisas eu quero vivenciar mas não posso, tantas coisas poderia ser mas não é permitido, tantos lugares quero ir mas não há como, tanto tenho pra dar mas não querem... Se por um lado as intempéries não chegaram a impedir o crescimento das uvas, elas parecem estar destinadas a apodrecer no galho por não serem de boa safra para o vinho.  Hoje é meu aniversário e comecei por falar de morte. É que não sei quase nada sobre a vida a não ser que, como alertou Guimarães Rosa, viver é muito perigoso. E eu não tenho nenhum preparo. Vou vivendo de improviso. Não sei planejar o futuro. Já é quase carnaval e nem mesmo alegria suficiente para um carnaval eu consigo ter. Mas eu já tive para bem mais, eu juro.  Tudo é tão passado. Mesmo eu neste momento pareço ser antes de Cristo. Como Quéops, Quéfren e Miquerinos, que mesmo estando de pé ainda hoje não dá mais pra serem de agora. E como se não bastasse hoje ainda fico mais velho. Tenho medo também de envelhecer. Sim, eu sou vaidoso. Suspeito com muito risco de certeza que é balela toda essa história de que há beleza na velhice. O que quando muito pode haver é paz. E também não sei dizer se a paz de eterno silêncio pra cochilo e bandeira branca hasteada é céu. Espero não estar parecendo ser amargo. Quem me conhece sabe que não sou. Mas não dá pra negar que estou triste, mesmo agora eu choro de tristeza. Mas é sem desespero. Há tristezas dulcíssimas. Já aprendi a sofrer. E hoje só aceito que o sofrimento venha se for para sofrê-lo bem, não dá mais pra sofrer muito. Sofrer muito exaure demais uma pessoa. Minha força é de ocasiões. Mas acaba de me ocorrer uma coisa: se eu morrer mesmo com vinte e sete anos, vai ter certa graça. Vai ser até literário, como foram tantas outras coisas que me aconteceram. E vai ser uma pena eu não estar aqui pra escrever.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-7956688010387613895?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/7956688010387613895/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=7956688010387613895&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/7956688010387613895'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/7956688010387613895'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2009/02/doze-de-fevereiro-de-dois-mil-e-nove_12.html' title='DOZE DE FEVEREIRO DE DOIS MIL E NOVE'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-190333855211936782</id><published>2008-06-17T01:01:00.003-03:00</published><updated>2008-06-24T11:47:45.294-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>UMA HISTÓRIA</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Era uma vez — não, não; era mesmo, na realidade, toda vez. Nem comecei e já estou enfadado — quem lê vá desculpando. É que se mil e uma vezes eu tivesse que contar, mil e uma vezes ainda seria o mesmo — sem pontos a aumentar. Para Sherazade foi bem mais fácil, garanto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, é melhor aqui não falar “contar”. — Quando as fragmentárias idéias do que está se resultando nisto começaram a se tornar uma ameaça, da qual eu não teria como escapar, fui procurar ajuda nos livros, verificar se havia gênero que suportasse uma narrativa de enredo quase nulo. O que tenho a registrar é tão pouco, é tão medíocre, que até tipologias que só abrigam o curto e o reduzido são demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aprendi que Conto não dá pra ser, porque diálogo e conflito são elementos fundamentais para sua elaboração. E a pessoa sobre quem escreverei não fala nada significativo, nada que outros já não tenham dito e, sobretudo, não conversa consigo mesma porque não possui vida interior. Conflito? Somente algumas insatisfações tão clichês que qualquer destaque seria alarmismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Crônica também não será, pois nem me valendo de toda minha criatividade eu conseguiria, como fazia Sabino, coroar com êxito o pitoresco — se é que há — ou o irrisório da vida dela. Mas falando em Sabino, assim como ele, em sua Última Crônica, vejo que só estou adiando o momento de escrever, assustado com a perspectiva que, neste caso, não é nada boa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que insisto? Rachel de Queiroz uma vez disse que não gostava de escrever, mas que escrevia para se livrar das idéias que lhe vinham. Pois bem, é exatamente para me livrar dessa personagem que me assombra que escrevo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nome dela é Anísia. (E que não se antecipem os que porventura acharem que usarei o presente intencionando conferir atualidade ao texto. O faço somente para evitar confusões com o tempo. Já disse: com ela é toda vez. Não vou desperdiçar trabalho distinguindo pretéritos sabendo que o agora e o depois vão confirmar a desimportância do esforço.) O nome dela é Anísia. Nome desprovido de qualquer graça e que por isso mesmo combina muito com a dona. Pois muito menos engraçada consegue ser. Naquela vez em que tentou contribuir com uma piada na roda de colegas que riam de trivialidades, caiu na besteira de repetir uma que há muito já contavam:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ouvi dizer que o governador proibiu as mulheres de Santa Maria de engravidarem, para diminuir a população de gente feia no estado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quando o sujo desdenha do mal lavado, ninguém ri. Ela se tocou. Desconheço outra vez que tenha se aventurado no humor. Até porque a expressão que sempre carrega na cara não contribui. Quando calada, os lábios ficam sempre emborcados e, como o mínimo de claridade parece lhe incomodar, franze os olhos, montando uma careta aborrecida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E antes que eu me esqueça: não gosta de música. Nunca ninguém a viu cantarolando um lá-lá-lá, distraída. Dançar, muito menos. Seu corpo gordo, de bunda achatada, sustentado desarmonicamente por pernas finas, não possui leveza para isso. Mesmo em criança nenhuma coisa nem outra. De roda nunca brincou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas foi já em princípios de sua adolescência que teve talvez a principal de suas raríssimas reflexões: deu-se conta de que não lhe faltavam apenas encanto e beleza. Ela, que como foi dito há pouco, não tem muito boas relações com a claridade, é também cria de uma família escura. E, como se não bastasse, pobre. Na medida em que crescia, Anísia, alienada que é, era forçada a perceber que o mundo, ajustado ao sabor dos brancos e endinheirados, só permite aos como ela, pequenos espaços, e, em geral, perto dos fundos. — Porém não se engane quem, apesar do que já foi posto, pode ainda cogitar que Anísia teve algum rompante sócio-político e engajou-se em favor dos seus iguais. Coisíssima nenhuma! Não titubeou em aceitar da tia que casou com um preto que vencera na vida, dono de farmácia grande, o convite de ir morar em sua casa para ajudar a cuidar do filho que o casal esperava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Casa de grã-fino, assobradada, situada na praça onde fica a prefeitura e a igreja, com terraço gradeado, de onde se pode ficar tomando a fresca e ver o vai e vem das pessoas — cada uma com uma história, com motivos, com assunto, com vida. E desse camarote, aonde, desde que chegou, passou a se empoleirar como ave agourenta, sempre que há tempo entre uma ou outra obrigação, Anísia, ávida, se alimenta da vida alheia para nutrir as grandes extensões de corpo que lhe sobram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O farmacêutico era bom negociante, tinha na clientela as figuras tidas como ilustres da cidade. Por muitas vezes indicava o remédio sem que fosse preciso o doente ir ao médico; com isso ganhou, na boca do povo da cidadezinha, título de doutor. Anísia, mais que ele e sua mulher, tinha grande orgulho do título, orgulho de morar em casa de parente doutor, imaginava que por isso em algum canto lhe sobrasse alguma importância também. Embora fosse de casa, nunca lhe dirigiu a palavra sem colocar o doutor antes do seu nome. Quando ele morreu, alguns anos depois do nascimento do filho, a tia ficou tomando conta da farmácia e, boa administradora, conseguiu manter o negócio sem grandes baixas, embora nunca tenha sido chamada de doutora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À Anísia foi recomendado que redobrasse os cuidados com o único homem da casa. Mas nem teria sido preciso dizer: até nas amizades do menino ela metia o bedelho. Os colegas chegavam à porta: — Ô, Toninho, vamos brincar? E se Toninho não tivesse escutado, ela mentia, dizendo que ele não estava, ou que estava dormindo. Algumas vezes Toninho a flagrou fazendo isso com alguns dos amigos que mais estimava. Dava-lhe grandes broncas na frente deles. Ela nem se importava. Ao contrário, só achava ainda mais que estava certa, que aqueles meninos eram má influência, que os filhos do juiz eram os únicos dignos da companhia de Toninho. Nenhum dos amigos gostava dela. Logo virou alvo de chacota entre os meninos: “se alguém quer que uma história se espalhe, não precisa colocar na rádio ou no carro de som, conta pra Anísia!”, ou, “quem foi que disse? Anísia? Então é mentira!” Toninho não era muito de fazer coro com eles, é bem verdade, mas nunca a defendia. Tornou-se rapaz com baixa tolerância às maneiras dela. Não raro a humilhava, sentido até algum prazer nisso. Certa vez, encolerizado por razão de mais um de seus intrometimentos, atirou-lhe um pote de maionese que, se não tivesse pego na parede, teria lhe estragado ainda mais a cara. Ela, resignada, com secreto medo de ser vista como dispensável e ter que se ver obrigada a voltar pra casa da mãe pobre, não podendo mais desfrutar do camarote para o espetáculo da vida alheia e envergonhar-se por perder o padrão social que pensa ter, jamais chegou a verdadeiramente se ofender. E quando Toninho bebe e dá algum vexame na rua, ela se vale de todo o seu talento com a mentira para dissimular às colegas e ao povo da rua o acontecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era pra eu ter dito que em festinhas de escolas e quermesses costumam convidar a tia de Anísia para sentar à mesa de autoridades ou de comissão julgadora, porque ela costuma dar uns trocados como patrocínio e também porque alguns acham que se trate mesmo autoridade, por ser viúva do “doutor”. A tia, enfadada, nunca comparece. Manda Anísia para representá-la. E Anísia vai satisfeitíssima. De cabelo alisado e com boca pintada de batom bem vermelho, senta e sustenta a pose quantas horas forem necessárias. Se tem que dar algum voto, em ocasiões como desfile infantil ou rainha do milho, observa primeiro qual menininha está sendo mais votada, para depois dar seu voto — não seria louca de desperdiçar seu voto com quem vai mesmo perder. (Sei que é totalmente irrelevante essa informação e eu poderia tê-la deixado omissa já que não a encaixei no outro parágrafo, mas estou tirando leite de pedra: se não é essa, é nenhuma. Não posso me dar ao luxo de um Brás Cubas que sugere ao leitor que não leia parte do que escreveu. Não posso desperdiçar nada ante minha pobreza de assunto.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já citei que ela tem colegas, sim? Pois bem, colegas e só. Ninguém a quem possa verdadeiramente chamar de amiga ou amigo. Em geral, esposas frágeis e indolentes de alguns clientes da farmácia. Algumas que ela conhece desde pequena. Nenhuma lhe faz efetivamente uma visita — encontram-lhe no terraço, sentada, a se deleitar com o movimento da rua, ouvem a mais recente fofoca, retribuem com algum comentário sobre alguma festa ou jantar e se despedem sem saudades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi com elas que, fragmentariamente, Anísia aprendeu sobre a intimidade com um homem. É claro que nunca fora nenhuma inocente. Curiosa que é, sempre soube de algumas coisas. Mas se surpreendeu ao constatar a empolgação delas em comentar umas com as outras sobre como é bom. Às vezes falavam de beijo, comparando os beijos dos maridos com os de ex-namorados, também com muito prazer na fala e no rosto. Anísia, que já naquela época se manipulava algumas vezes em busca de algo, sem nada encontrar, ficou mesmo curiosa. Antes, achava que essa história de prazer e desejo em mulher era coisa de livro e novela. Mas se consigo mesmo não conseguira nada, como faria para saber? Já que nunca tivera ninguém. Já que nunca soubera como abraçar e beijar um homem. A curiosidade aumentava e a virgindade, orgulho e honra durante um bom tempo, agora ia se convertendo em maldição. Os apelos do corpo eram confundidos com angústia. — É que quando olhava para um rapaz bonito, empinando-se, mudando a fala, tentando parecer mais leve, maviosa, sorrindo seu sorriso mal feito, o rapaz ou a olhava com estranhamento ou saia de perto, segurando uma gargalhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal, por caridade, quem iria querer Anísia? A resposta mais tarde iria ser dada exatamente pela pessoa que a levou pra cama: por caridade. Sempre há um chinelo velho para um pé cansado, não é o que dizem? Anísia, chinelo velho, tratou de cansar um pé. — Alberto era um desses rapazes que a eriçavam na juventude. Barbudo, de pernas e braços peludos, despertava dentro de Anísia miados de gata vira-latas no cio. Ímpetos que a levavam a repetir a procura solitária em si mesma, a buscar o que as amigas diziam sentir. Mas nem mesmo ela conseguia achar algum atrativo em si que a motivasse à persistência. Sua mão pesada parecia lhe machucar e ela acabava por sentir um misto de nojo e vergonha. Maldita natureza que não lhe esfriava! Um mero encontro ocasional com Alberto na rua lhe renovava os calores. Se fosse alguém que vivesse por dentro, talvez até tivesse caído em alguma espécie de tristeza romântica, algo parecido com dor de paixão não correspondida. Porém, o que ela queria era somente executar parte de sua função de fêmea. (Antecipo que ela não teve filhos e ouso garantir que jamais terá.) E como uma galinha, não se ofendia se o galo não a cobria naquele momento; sua hora haveria de chegar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E chegou. Depois de longos anos, depois de outras rejeições, depois de Alberto ter ido morar em um estado distante, casar, ter um filho, se separar da mulher, sair do emprego e voltar para cidade já com seus cabelos e barba esbranquiçando. Anísia, que troca fofocas com a irmã que o hospedava, começou a lhe fazer visitas periódicas, levando-lhe doces ou sopa. Ele gostava dos agrados. E Anísia ficava sem caber em si de felicidade. Num fim de tarde, quando passou por lá levando uns sequilhos, Alberto, sabendo que estava só em casa, lhe segurou forte os braços e lhe deu um beijo. Ela se tremeu toda. Ficou tonta. De uma vez só sentiu medo, nervosismo, vergonha, alegria e desejo. Ouviu-o dizer que no fim de semana lhe levaria numa cidade próxima, onde havia um clube com um hotel bacana e saiu de lá sem nada dizer. Desde então ficou ansiosa e assim permaneceu durante os dias que antecederam o passeio. Não comentou nada com ninguém (não havia mesmo ninguém com quem partilhasse segredos, ou melhor, na verdade nunca fora alguém o bastante para ter segredos). Como é boa mesmo em mentiras, deu uma desculpa à tia e foi passar o fim de semana esperado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a viagem trocaram o mínimo de frases. Ela por estar nervosa e não saber mesmo o que dizer. Ele porque, de leve, já começava a sentir que iria se arrepender disso. Mas a música alta no som servia para justificar a mudez de ambos. Enfim chegaram. O clube, com muito verde, muitas flores e piscina grande, encantou Anísia que, secretamente, fingia estar em lua-de-mel. Ao entrarem no quarto, foi logo tomar banho. Não sabia o que deveria fazer senão o que viera fazer. Então se antecipou. Temia que Alberto desistisse. Ele estranhou a pressa ao vê-la sair do banho só de toalha, sorridente, macaqueando algo no jeito de se mover que talvez intencionasse ser charme. E a situação agora lhe inspirava mais tragédia que excitação, mas não recuou — quanto mais cedo começar, mais cedo termina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E neste ponto pouco me importa a mingua de assunto, recuso-me a descrever tal cena! Basta dizer que para Anísia foi muito bom. Não exatamente a penetração, mas ter um homem pesando em cima de si, o roçar do corpo peludo no seu, a quentura do contato com o outro. Teve vergonha de gemer. Conteve-se. Porém, respirava sofregamente como um asmático. Alberto, viril que sempre se gabou ser, funcionou, mas não conseguia gozar, e, com medo de brochar, resolveu fazer uma coisa da qual, mesmo mantendo em absoluto segredo, se envergonha até hoje: como estava usando preservativo e ela certamente não iria perceber, fingiu com grunhidos um orgasmo, como se fosse uma mulher frígida, e se levantou rapidamente indo para o banheiro se lavar. Anísia suspirava na cama se sentindo mulher completa. Depois que Alberto voltou, quase uma hora depois, e já todo vestido, ela perguntou se podia fazer um lanche. Ele consentiu com a cabeça e ela pediu muita comida. Comeu sozinha. De estômago embrulhado ele não conseguiu. Evitava vê-la comer. Voltaram tão logo ela se satisfez. O som do carro mais alto ainda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas semanas depois Alberto foi embora para a cidade onde trabalhava. Desde então não veio mais visitar a irmã. Embora não afirme que estejam namorando a distancia, Anísia não desdiz quem assim nomeie. Cheia de pudores, nunca detalha a viagem às colegas. Narra por alto, deixando margem para todas acharem que o que lhe aconteceu foi bem melhor do que o que lhes acontece com os maridos. Aliás, conta e reconta a quem estiver disposta a ouvir, iluminando este ou aquele trecho com maior ou menor intensidade, fazendo parecer, em cada vez, uma história diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talento que eu gostaria de ter para recomeçar isto aqui em algo que se pudesse chamar de história. Que ainda que não fosse atraente tivesse começo, meio e fim. Mas com Anísia tal feito me escapa a qualquer atributo que eu tenha para redação. Com ela é toda vez, mais uma vez repito. O leitor que porventura tenha conseguido chegar aqui que se arrisque: remonte e tente chegar a algum lugar que não seja este. Duvido que seja permitido à Anísia um happy end ou um final triste em dia chuvoso. Arrisco até a dizer que possivelmente ela jamais morra — a Morte só lembra de vir buscar aqueles cuja existência é embutida de vida. Ou talvez não. Talvez num dia dos mais bobos, ela morra. Morra no lugar de alguém que a Morte, enfadada de ter que ir buscar, a ponha como representante. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style=";font-family:arial;font-size:85%;"  &gt;escrito em 8/05/2008&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-190333855211936782?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/190333855211936782/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=190333855211936782&amp;isPopup=true' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/190333855211936782'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/190333855211936782'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2008/06/uma-histria.html' title='UMA HISTÓRIA'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-631258477814727541</id><published>2008-06-15T20:59:00.001-03:00</published><updated>2008-06-15T21:18:48.056-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='encontros inusitados'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pulsações'/><title type='text'>O VIAJANTE DO ESCURO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Minha ida àquela detestável cidade havia sido, de certo modo, por obrigação. Mas não vem ao caso, agora, os motivos que me levaram até lá. Se justifico que não podia escolher não ir, é somente para que fique claro que já carregava incômodo em mim antes mesmo de entrar naquele ônibus povoado de pessoas sujas de si mesmas — paradas que estavam de um longe que vinham com destino ao longe que iam. Incômodo que o balanço constante e incontrolável das minhas pernas engrenava um relógio que girou na verdade dois mil anos em apenas registradas duas horas de viagem. E de pura impaciência, mal o veículo entrou nos limites urbanos da cidade, saquei o telefone e liguei para minha tia pedindo que ela se adiantasse a ir me buscar na rodoviária. Eu queria descer dali e ir diretamente sem espera para sua casa. Me ligue quando chegar realmente no terminal, você sabe, não é longe daqui, eu não vou demorar — foi o que ela me respondeu. E eu não iria argumentar com o que ia lhe parecer um mero capricho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tive o privilégio do vento fresco e puro para aliviar minha tensão no desembarque. Ele chegava até mim em brisa aquecida e por vezes mal cheirosa, por ter sido antes retardado em meio à aglomeração de pessoas iguais àquelas do ônibus que tomei. Do outro lado, no embarque, ainda que não tão volumosa como a de cá, outra aglomeração agitava-se para se dividir em três ônibus que abriam as portas e começavam a aquecer os motores, dois com destino à João Pessoa o outro à Campina Grande. O que tanta gente iria fazer na Paraíba? Cada um com seu motivo... E eu acabei me lembrando que ainda não a conheço. Com minha pequena bolsa de viagem de fim de semana pendurada no ombro, caminhei o mais rápido que pude rumo a uma das saídas, enquanto de telefone já no ouvido esperava minha tia me atender e desviava de mais pessoas que circulavam ali naquele começo de noite de sexta feira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No portão relativamente largo, cinco mulheres conversavam despreocupadamente sem se darem conta de que dificultavam a passagem de pessoas que precisavam entrar e sair com pacotes e bagagens. Tive que pedir licença a que se encontrava mais próxima à parede para que ela se afastasse me permitindo passar. Foi quando vi, agitando-se no batente que eu precisava descer para enfim sair daquele lugar, a extremidade de uma dessas finas e compridas bengalas e segurando sua outra ponta, sim!, um cego. As mulheres simplesmente pareciam não terem atinado que um homem que não enxerga estava completamente atrapalhado porque elas obstruíam o caminho e conversavam alto e ao mesmo tempo, confundindo a direção dos sons. Ele estava só e muito provavelmente foi só que chegou até ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi por bondade, tampouco altruísmo, mas decidi ajudar o cego. Talvez tenha sido algum eco da boa educação que recebi mas que eu, rebelde que sou, infrinjo tantas vezes por dar vazão em tantas oportunidades mais ao prazer ou mesmo à crueldade. Ou talvez porque me senti atraído pela condição daquele homem de aspecto um tanto feio, com seu pescoço meio torto, olhos quase que fechados, deixando transparecer no pouco do globo ocular tão totalmente branco que se via, a inexpressão de quem só enxerga o preto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que os olhos não vêem o coração não sente. É? Que sei eu do coração de quem não vê? O que sei é que a falta de visão nessas pessoas aguça os outros sentidos e a elas o direito de tocar é quase que impossível de ser negado. A elas é permitido “ver” as outras pessoas através de carícias, percorrendo com a ponta dos dedos e a palma das mãos os sulcos, as saliências e a textura dos rostos e corpos. Para não falar do seu alfabeto táctil, que faz com que a leitura seja uma prática quase sensual e de seus sonhos feitos só de sensações. E certamente gosto e cheiro são mais bem percebidos por um cego, em todas as nuances que eles podem ter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez assisti um documentário sobre o cérebro humano em que mostrava um experimento feito com um homem que consistia no seguinte: depois de terem instalado vários eletrodos em sua cabeça pediam que ele observasse uma flor, então percebiam uma atividade em uma determinada região do seu cérebro; em seguida, com olhos vendados pediam que ele imaginasse a flor e a mesma região manifestava a mesma atividade. — As imagens são traidoras e basta uma única visão para o coração se enganar. Sentir ele vai sentir sempre, mesmo que não se queira, mesmo que não se veja ou se torne a ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cuidado, moço, aí tem um degrau, eu disse o convidando a entrar. Ele, relaxando as sobrancelhas, como quem se livra de uma grande preocupação, agradece e emenda: obrigado, senhor, estou percebendo o degrau, mas preciso mesmo ir ao embarque, por onde vou? Esbocei mentalmente um jeito de explicar, mas de que adiantaria pedir que ele seguisse em frente e em certa altura virasse a esquerda? Perdido em seu escuro pessoal naquele ambiente tão iluminado, ele era uma barata zonza de única antena, sua bengala, perscrutando o espaço para evitar os esbarrões e tropeços. Eu agora já não podia voltar atrás, a ajuda não iria poder se limitar numa indicação, Teria que levá-lo até lá, sobretudo porque ele ainda explicou: vou tomar o ônibus para João Pessoa. Pois eu vou levar você lá e temos que nos adiantar, vi que esse ônibus está para sair. A ruga no meio de suas sobrancelhas ligeiramente voltou, mas com voz muito simpática ele me instruiu em como oferecer minha ajuda: pode pegar no meu ombro e caminhar até lá, não se preocupe com o resto. Pegar? Mas não são os cegos que em geral seguram o ombro da gente? Oh, Deus, eu não sei pegar em desconhecidos — eu pensava — eu até de certa forma lhe invejo, senhor cego, porque em meu mundo tão visual eu não sou acostumado em pegar nas coisas e em pessoas, bem como me desagrada ser tocado por quem não conheço. Entretanto, pousei meus dedos indicador e médio em seu ombro e isso foi o bastante para que ele, com um passo mais firme, caminhasse numa velocidade que sei ser impossível para ele quando só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cuidado, moço, aí tem um degrau, alertei novamente agora que desceríamos para a plataforma de embarque. Sim, sim, eu percebo o degrau, ele respondeu denotando uma leve impaciência, como quem ao mesmo tempo em que precisa de certos cuidados se irrita com o excesso deles. O embarque ainda estava desorganizado, pessoas espalhadas, despedindo-se, carregando malas. E dessa vez, de maneira firme, peguei no cego, sem constrangimentos, pois crescera em mim naquele instante algo paternal — o pai que segura o filho em meio à multidão para que ele não se perca. E eu suavemente ora o empurrava, ora o puxava, conduzindo-o pelas vias daquele labirinto de objetos e gente. Até chegarmos à porta do ônibus. Depois de conferir com o funcionário que recebia as passagens se a dele era para aquele ônibus mesmo, ele estirou a mão para o nada, sua mão de cego que estirada daquela maneira parece querer apalpar o futuro e agradeceu de maneira enfática, implicitamente dizendo que não precisava mais de mim. Segurei a mão dele: boa viagem. Obrigado! E novamente me dirigi à saída.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Destemido, corajoso e independente, aquele cego é superior a mim. Eu a quem uma imagem põe medo. Eu que muitas vezes enxergando o caminho tenho medo de dar o passo. Eu que mesmo vendo, preciso de uma mão me guiando pelo ombro. Eu que viajo pouco e que precisava que minha tia fosse me buscar na rodoviária não só porque me sentia cansado para ir a pé, mas porque mesmo tendo a visão sadia demoraria um bom tempo para me achar nas ruas daquela cidade onde já fui consideráveis vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao chegar ao portão, avistei minha tia que acabava de estacionar: o ônibus chegou agora? Não, é que fui ajudar um cego a embarcar num ônibus. Ela nada comentou. No caminho, antes de me esquecer dele, ainda pensei: ele foi para a cidade onde no Brasil primeiro se vê a luz do sol — uma pena ele não poder ver a luz fresca do sol. Mas ele a sentirá. Bem mais completamente, eu sei. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:85%;"&gt;escrito em 31/01/2007&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-631258477814727541?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/631258477814727541/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=631258477814727541&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/631258477814727541'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/631258477814727541'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2008/06/o-viajante-do-escuro.html' title='O VIAJANTE DO ESCURO'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-887009693879867732</id><published>2008-06-14T14:30:00.002-03:00</published><updated>2008-06-14T14:47:42.905-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='achados e perdidos'/><title type='text'>CONTRIBUIÇÃO TARDIA AO MONTEIRO LOBATO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Se eu acredito em Mula-sem-Cabeça, Lobisomem, Negro D’água ou qualquer outra figura dessas? Quando me perguntam, é claro que eu nego. Sou grande e não posso pôr em risco minha reputação de pessoa estudada e científica. Muito embora até hoje, se vou numa fazenda ou qualquer lugar com mais árvores que concreto, não permito que ninguém mencione o nome da Comadre Florzinha — que desde criança aprendi a temer por conta de suas chicotadas invisíveis e do seu poder de fazer a gente se perder no mato. Mas já que o respeitado escritor Monteiro Lobato, lá pelos anos de 1917, sem vergonha alguma propôs n’O Estado de São Paulo a abertura de um inquérito para provar a existência do Saci, pedindo aos leitores que enviassem relatos ou informações sobre o negrinho de uma perna só, eu agora me dispo de qualquer pudor adulto para contar o que me aconteceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por conta de uma reforma que está sendo feita em minha casa, eu e minha família fomos obrigados a nos mudar temporariamente. Aguardamos o término da obra na casa de uma tia que mora em outro estado, mas tem uma casa aqui toda mobiliada. Então guardamos nossos móveis na garagem e em dois quartos vagos na casa de um primo e fomos pra casa da tia só com roupas e objetos pessoais. No meu caso, entre os objetos pessoais, estão inclusos os meus livros. Lógico! Jamais que eu os deixaria, ainda que bem encaixotados, solitários numa garagem ou num quarto que, vai saber, pode ter uma goteira, uma infiltração, traças, incêndio, alienígenas ou qualquer outra coisa que os estraguem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já devidamente instalados na nossa morada temporária, me lembrei de um livro que não é meu, mas que estava comigo para ser xerocado. Dentro das caixas dos livros que eu trouxe, tinha convicção de que ele não estava. Infelizmente, a última recordação que minha mente guardou dele era a de que eu o tinha deixado em cima da mesa na sala na noite anterior. Mas na confusão da mudança onde ele havia ido parar? No outro dia, logo cedo, fui à casa do meu primo fazer uma busca. Abri todas as caixas em que era possível ele estar — ou seja, só não abri as que têm escrito “panelas”. Procurei dentro dos móveis. Nada. Voltei para casa muito chateado e preocupado. Outras pessoas estavam esperando o livro para xerocarem também. E, como se não bastasse, o dito cujo é consideravelmente caro, se eu não achasse, teria que pagar por ele. Como minha mãe ralhou comigo, dizendo que não sei procurar nada, intimei-a a ir me ajudar a procurar mais uma vez na manhã seguinte. Fomos. Mais uma vez, nada. Minhas esperanças foram embora. Liguei pra dona do livro comunicando o acontecido e me prontificando a pagar-lhe outro. Minha mãe ainda me recomendou procurar nas caixas com os meus livros. Até o fiz, mas com muito pouca vontade, pois estava certo de que não tinha pegado mais nele depois que o deixei em cima da mesa. Outra vez, nada. Sem realmente entender como um livro podia sumir assim, cheguei até a fazer piada: tá encantado, foi coisa do Saci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabendo do acontecido, Ní, a auxiliar administrativo do trabalho da minha mãe, que, muito prestativa, nos ajudou no dia da mudança, disse que iria fazer uma simpatia para obrigar o Saci devolver o livro. Ri da coincidência de termos atribuído a responsabilidade do sumiço ao mesmo salafrário. Gente boníssima essa Ní, que está na maioria das vezes rindo, não passa um dia sequer sem comer feijão, adora galeto — que ela chama “galeti” — e que quando está se sentindo muito bem instalada num lugar bacana diz: tô me sentindo em Nóvi Órqui. Pois essa boa Ní fez a simpatia e mandou me dizer que eu não parasse com a busca, porque a coisa é infalível. Mas eu, adulto costumeiramente incrédulo que sou, apesar de ter achado muito bonito o gesto da Ní, continuei a teimar na falta de esperança...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois dias depois, mais precisamente na noite em que se completou uma semana que a simpatia foi feita, mexendo nas caixas dos meus livros, procurando umas folhas para imprimir um documento, me deparo espantado com o livro. Ele estava ali, por onde eu já tinha passado a vista, por onde eu já havia fuçado e não tinha encontrado. Como isso se explica? O Saci que o encantou, ora, está mais do que evidente! Feliz da vida, contei logo pra minha mãe que, por sua vez, ligou pra Ní para agradecer a ajuda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No outro dia Ní contou que passou o maior sufoco ainda na mesma noite pra desfazer a simpatia e deixar o Saci em paz. Pois a coisa consiste no seguinte: pega-se um pau e o enterra na areia dizendo: “Saci, estou enfiando este pau no seu cu e só tiro quando você devolver tal coisa.” — Desculpem não ter substituído o termo, mas acho que cu, Saci só entende por cu mesmo e minha intenção aqui é também ensinar a quem me lê a dar uma lição nesse safado. Mas é muito importante mesmo que conseguindo achar o perdido, que se desenterre o pau, porque do contrário, as dores dele enfiado ali passam para quem fez o trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma vez, obrigado, Ní. Agora que aprendi a receita desse quebra-encanto não perco mais nada. Quem tem cu tem medo. Até o Saci.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:85%;"&gt;escrito em 26/09/2007&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-887009693879867732?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/887009693879867732/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=887009693879867732&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/887009693879867732'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/887009693879867732'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2008/06/contribuio-tardia-ao-monteiro-lobato.html' title='CONTRIBUIÇÃO TARDIA AO MONTEIRO LOBATO'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-3024319365871864203</id><published>2008-06-12T03:30:00.003-03:00</published><updated>2008-06-12T03:46:35.055-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='reminiscências'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='encontros inusitados'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pulsações'/><title type='text'>MEMÓRIA EMOTIVA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Quanto tempo dura uma emoção? Melhor: por quanto tempo a emoção de um momento pode ficar guardada dentro de nós? Será que durante toda a vida carregaremos os ecos de sensações que determinadas situações nos fizeram sentir? Se sim, seremos sempre passíveis de em certos instantes, sem muito aviso — às vezes apenas um gesto ou um cheiro —, sermos acometidos por elas novamente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mexendo na bagunça do meu quarto, eis que me recai nas mãos um livro que eu nem lembrava mais possuir. E junto com a lembrança da história que está contida nele ele me trouxe as recordações e emoções da situação em que o ganhei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A letra meio trêmula com que a autora o ofereceu a mim num autógrafo se encarregou de evocar a data, registrada junto da assinatura: dez de junho de dois mil e cinco. Eu mal havia chegado à cidade, uma então grande amiga que já me aguardava, me ligou dizendo estar com as entradas para a exibição de &lt;em&gt;Dançando no Escuro&lt;/em&gt;, que na época já não era mais lançamento, mas ainda não tínhamos visto e aquela amostragem era uma ótima oportunidade. Fomos eu, ela e seu então namorado. Ela se sentou entre nós dois e do meu lado direito a poltrona vizinha se manteve vazia, na seguinte, uma senhora a quem não prestei atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Selma, a protagonista da história, sai da Tchecoslováquia para os EUA — país dos musicais que ela tanto amava assistir — para tentar conseguir fazer a cirurgia que impedirá seu filho de ficar cego devido a uma doença genética que já tirou dela quase toda a visão. Para isso ela trabalha exaustivamente, disfarçando para todos a sua quase total cegueira e seus objetivos. Disfarçando às vezes também para si mesmo seus próprios problemas, imaginando-se num grande musical, onde até mesmo os ruídos das máquinas em que trabalhava viravam música e todos dançavam. Economizava tudo o que pode para o tratamento. Seu vizinho, um policial que está devendo muito ao banco, desesperado e tendo conhecimento de sua deficiência, a rouba. Na tentativa de reaver o seu dinheiro, ela é forçada pelo próprio ladrão a matá-lo. Desacreditada e se privando de detalhar as circunstancias em que tudo aconteceu, acaba sendo condenada à forca. Enquanto espera a execução, até poderia ter recorrido e comutado sua pena, mas como para isso teria que usar o dinheiro que tinha juntado para a cirurgia do filho, prefere que ele se cure e veja os netos que um dia terá e aceita resignadamente a morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quem já viu ao filme pode atestar: ele é muito mais do que isso. Só assistindo mesmo para sentir o peso do drama que massacra Selma. Eu chorei. Chorei muito. Não aquele choro de quando vemos um outro filme qualquer, cena de novela, ou mesmo notícias tristes no jornal. Foi um choro desenfreado, com soluços. Nunca passei e os céus me protejam de passar situação parecida. Mas ali era a realidade transfigurada em arte me fazendo provar da mesma agonia que ela sentia em ficar no silêncio. O desamparo com que ela seguia em sua luta. A dor de uma mãe disposta a dar sua vida pra iluminar os olhos do filho. — Maria crucificada em lugar de Jesus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fim de filme. As luzes do cinema se acenderam e eu ainda chorava. Minha então amiga e seu então namorado saíram na frente, percebendo que eu realmente precisava de mais um tempo ali sentado. Enxugava as lágrimas na blusa, fungando, procurando me recompor. Foi quando fui surpreendido pelo comentário feito em tom extremamente simpático pela senhora sentada na poltrona depois da vazia ao meu lado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Mas que rapaz sensível!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei pra ela tímido, esboçando um sorriso e logo voltando a baixar o rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Nosso encontro aqui talvez não tenha sido por acaso. Acho muito bonito um jovem capaz de se emocionar assim. — Ela disse sorrindo. Continuou me olhando por uns segundos e mexendo em sua bolsa como quem procurava algo continuou. — Eu havia prometido dar isto a uma pessoa, mas acho que será bem melhor dar a você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um livro. A Luz do Amor. Em outras circunstâncias eu teria pensado de imediato: que título cafona! Mas na hora, nada pensei. Apenas observei a capa e folheava suas páginas sem ler. Ela continuava me olhando com ar bondoso. E então me falou sobre o livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Fui eu que escrevi esse livro. Ele conta a minha história e a história do meu filho. Quando engravidei dele tive uma espécie rara de rubéola que não foi identificada pelos exames médicos. Por conta dela meu filho nasceu prematuro e com múltiplas deficiências, inclusive cegueira. Os médicos lhe deram apenas dez anos de vida. Sofri muito. Sobretudo por conta do preconceito das pessoas. Mas hoje ele já tem catorze anos e todo o amor que eu e minha família damos a ele o faz se adaptar cada vez melhor ao mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fiquei bobo! Ela tomou o livro de minhas mãos, escreveu uma dedicatória e pôs seu autógrafo. Agora era eu que olhava para ela que não parecia ter chorado nenhuma vez ao ver o filme. Naquele mesmo espaço de tempo eu tinha me aproximado de duas histórias diferentes, mas, de certo, com muitas dores parecidas. Uma da ficção e outra real. Duas mulheres que pagavam um preço alto demais porque, como diz Selma no filme, desejavam ter o prazer de segurar um filho nos braços. O que se seguiu eu não sei explicar de quem foi a iniciativa: nos abraçamos. Acho que era apenas isto: nós dois queríamos nos abraçar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Li o livro de uma vez só na semana seguinte. Leitura fácil, sem se preocupar em fazer Literatura. É apenas o relato de alguém que realmente precisava dividir suas angústias, reflexões e as alegrias que ia conquistando com os progressos do filho. O compartilhar de uma história repleta de emoções que ela, forte que seja, não pode guardar sozinha. É preciso dividi-la com os que ela ama e os desconhecidos. Preferencialmente desconhecidos com a capacidade de se comover, como um rapaz que chora feito criança ao ver um filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pessoas como eu! E não me elejo assim com intenção de me gabar. — Nesta vida o que não falta é motivos para nos comovermos. Seja por conta de tristezas ou de fragmentárias alegrias. Quem sente sabe: a alma às vezes cansa e não há tempo para se refazer. A vida é agora, agora e agora e agora... E amanhã, por mais filho de hoje que seja, pode não guardar nem um laço de parentesco. Duas semanas depois daquele encontro minha vida mudou completamente e um dia talvez eu também escreva um livro contando o que aconteceu. E foi mudando, mudando e só vagas semelhanças e momentos como o de agora em que seguro este livro atestam que o eu daquele dia é o mesmo de hoje. A então amiga já não tem mais seu namorado. Mesmo nós que nos gostávamos tanto nem somos mais amigos. Por onde anda a senhora e seu filho? Continuam bem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tudo vai passando. Só nos resta sentir muito. Sentir bem. Porque ao que parece, é só o que fica. E num certo dia, desavisadamente, um livro, ou um filme, ou uma foto, ou um gesto, ou um cheiro vai nos fazer lembrar.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;escrito em 22 de janeiro de 2008&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;object height="344" width="425"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/d9zFt6M_GLo&amp;amp;hl=en"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/d9zFt6M_GLo&amp;hl=en" type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="344"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-3024319365871864203?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/3024319365871864203/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=3024319365871864203&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/3024319365871864203'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/3024319365871864203'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2008/06/memria-emotiva_12.html' title='MEMÓRIA EMOTIVA'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-5801298182445431331</id><published>2008-06-10T10:29:00.002-03:00</published><updated>2010-02-21T20:40:43.494-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='reminiscências'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='encontros inusitados'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>SOBRE QUANDO NÃO SE DÁ PARA TROCAR DE GELADEIRA</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Esses dias encontrei uma amiga muito querida, dessas com quem se pode ter qualquer tipo de conversa, com quem não há receio de se desnudar em ser verdadeiro e até chorar sem esconder o rosto. E como o mesmo ela sente por mim, não fez rodeios em responder ao meu “como vai?” dizendo estar triste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O que aconteceu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Eu acho que descobri que não sei amar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Impossível você não saber amar, pensei. Logo você que sempre me pareceu ser cheia de amor. Que já me falou coisas tão verdadeiras e bonitas sobre ele. Que já leu livros importantes em que o Amor é tão formidavelmente ilustrado. Você que sabe enfeitar-se para o amor, com sua boca charmosamente intumescida, pintada de vermelho, cabelos soltos, indomados, olhos sensuais, boneca adulta. Que é toda feminina e conhece intuitivamente os segredos românticos de antigas sacerdotisas ao perfumar-se, ao vestir-se, ao escolher as jóias, ao cozinhar, fazendo pratos úmidos, caudalosos, coloridos, quentes, aromatizados com temperos eriçantes. Você que sobretudo não facilita com a palavra Amor porque tem consciência do que ele realmente é. Impossível que você não saiba. Mesmo porque, antes de qualquer conhecimento sobre ele, você o sente e sabe que é correspondida. Mas ela continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Realmente não sei se sei. Às vezes sinto que estou repleta dele, não cabendo em mim e minha pele parece esticar. Como se um único ser não fosse capaz de recebê-lo e eu precisasse de vários amantes para me ajudarem a me livrar dele que só cresce, cresce e precisa de mais espaço. E agora fiquei sabendo de uma amiga que se separou porque se apaixonou por um amigo. Perguntei ao meu marido, a quem julgo ser o grande amor da minha vida, se haveria de ser sempre assim, se para um casal se separar era necessário acontecer uma outra paixão. Ele me falou sobre a teoria da geladeira nova e da velha: você tem uma geladeira velha e embora ela ainda funcione, às vezes parece se sentir cansado dela, do barulho de seu motor, insatisfeito com a temperatura em que ela tem se mantido. Mas permanece com ela por medo de ficar sem geladeira. Até o dia que encontra uma geladeira nova, que lhe agrada e por isso mesmo você perde todo o receio de se desfazer da velha. Fiquei um tanto assustada com aquilo. Somos ainda tão jovens, vamos todos os dias às ruas, entramos em contato com pessoas novas, estamos todos suscetíveis porque vivendo não dá pra ser de outro jeito. Pedi para ele prometer comigo que jamais viveríamos tal situação, que antes que virássemos geladeira velha um pro outro nos separaríamos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Bem, até alguns anos em casa, tínhamos uma geladeira que já estava aqui desde antes de eu nascer. Vez ou outra ouvia minha mãe dizer que precisávamos trocar, que o modelo era velho, consumia muita energia e que seu funcionamento já não era tão bom, que de uma hora pra outra poderíamos ficar sem. De fato uma vez ela até pareceu não mais prestar. E já tínhamos o dinheiro para uma nova. Mas preferimos insistir com ela mandando-lhe para o conserto. Porque uma nova, por mais formidável que fosse, não nos serviria. Aquela geladeira velha era preciosamente amarela, a cor de nossa cozinha na época. Para trocarmos teríamos que trocar também a cozinha, porque ninguém mais encontrava geladeira amarela; uma outra ficaria por demais destoante da cozinha e, consequentemente, de nós. Então fomos com ela até onde pudemos porque descobrimos que era só com ela que a harmonia de nossa casa ficaria perfeita. Até quando ela realmente morreu, sem mais chance de conserto. Então trocamos a geladeira, trocamos a cor da cozinha e também outras coisas mudaram em nossa casa e em nós.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Ela olhou fixamente para mim com um novo ar no rosto, alegre, e sorriu. E eu, rapidamente desfazendo uma expressão indagativa por aquele seu olhar, também sorri. — Só agora tinha realmente entendido o que, sem querer, disse.&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;escrito por volta de abril de 2007&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-5801298182445431331?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/5801298182445431331/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=5801298182445431331&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/5801298182445431331'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/5801298182445431331'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2008/06/sobre-quando-no-se-d-para-trocar-de.html' title='SOBRE QUANDO NÃO SE DÁ PARA TROCAR DE GELADEIRA'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-1074921567601924119</id><published>2008-06-09T14:15:00.016-03:00</published><updated>2008-06-09T14:45:26.184-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pulsações'/><title type='text'>PARA ONDE VOU?</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:85%;"&gt;trecho de carta enviada à Ana Paula em maio de 2005&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Mas para onde vou? Esta tem sido uma pergunta angustiante. Um texto de internet, atribuído a Shakespeare — e que provavelmente não deve ser dele — diz que quando não sabemos para onde vamos, qualquer lugar serve. — É inquestionável que seguir andando é fundamental para se chegar aos lugares, porém, qualquer lugar não me serve. Tenho pensado muito sobre isso já que nem do meu próprio lugar natal eu me sinta ou tenha aparentado ser. Digo isso primeiramente referindo-me ao desconforto que você sabe que sinto em estar aqui, depois por um fato que vez ou outra se repete: eu não parecer aos outros que sou daqui. Mas quando falo “aqui” não quero dizer exatamente ou somente a cidade onde vivo. Por repetidas vezes, seja em capitais ou interior, algum estranho (quando não mais de um) me faz a mesma pergunta: “você não é daqui, sim?”. De onde pareço ser então? Eu mesmo não sei. Bem como não sei para onde gostaria de ir. (...) É cada vez mais urgente descobrir qual é o meu lugar para que, quem sabe, me surjam mais ousadia e determinação para que a minha caminhada possa ter rumo certo. Quando eu e meu irmão nascemos, minha mãe, seguindo uma superstição de família, guardou em caixinhas enfeitadas com fita um pedaço do cordão umbilical de cada um de nós. Quando ultrapassamos os doze anos, ela nos entregou nossos respectivos umbigos dizendo que os enterrássemos no lugar que quiséssemos fixar raízes. Meu irmão se desfez do dele jogando-o no rio, e isso talvez tenha alguma relação com a vida que ele leva, sempre correndo como as águas de um; mesmo o trabalho dele o impele a estar sempre viajando, sempre correndo. Quanto a mim, ainda tenho o meu, guardando-o com cuidado, na espera mais e mais ansiosa de enterrá-lo. A faceta de estrangeiro não combina comigo e tampouco sou uma pessoa desbravadora, que empreende viagens, que está facilmente preparada para correr riscos. Tenho em mim necessidade de portos seguros, de estabilidade e controle, de tal maneira que acabei me tornando um alguém desconfiado e cheio de medos de me ferir, de ser enganado, de enterrar o meu umbigo e depois ser obrigado a me retirar ou de me abandonarem ali, porque sozinho no fim eu também tenho medo de ficar...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5209938674275138754" style="DISPLAY: block; MARGIN: 5px auto 10px; WIDTH: 288px; CURSOR: hand; HEIGHT: 198px; TEXT-ALIGN: center" height="215" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_LRuboLhN3e4/SE1rnu29PMI/AAAAAAAAAD8/OBCplx5jZ_w/s400/DIGI0001.JPG" width="310" border="0" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-1074921567601924119?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/1074921567601924119/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=1074921567601924119&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/1074921567601924119'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/1074921567601924119'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2008/06/para-onde-vou.html' title='PARA ONDE VOU?'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_LRuboLhN3e4/SE1rnu29PMI/AAAAAAAAAD8/OBCplx5jZ_w/s72-c/DIGI0001.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-1158643545485045317</id><published>2008-06-08T10:53:00.005-03:00</published><updated>2010-02-21T20:40:00.207-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='reminiscências'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='encontros inusitados'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pulsações'/><title type='text'>MAURA</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;— Vocês têm um real para inteirar minha passagem? — ela perguntou com cara e tom extremamente simpáticos, tirando a mim e minha amiga de nossa despretensiosa conversa de mesa de bar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma dessas doidas que comumente encontramos por qualquer rua. Mas naquela rua do Recife em especial, que se chama Rua do Hospício, eu pensei que tínhamos uma quase obrigação de tratá-la bem. — Nós, tidos sãos, éramos clandestinos ali? Convidei-a para sentar-se conosco tendo a aprovação do olhar da minha amiga, ainda que não soubéssemos exatamente o que conversar com ela. Como a cédula de um real que logo lhe entreguei, sentar-se e ter um pouco de atenção era outra coisa que parecia desejar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Meu nome é Maura, como é o de vocês?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respondemos sem saber ao certo se fomos entendidos. Mas sabendo que para ela isso pouco importava. Sentou sem fazer cerimônia e desandou a falar. Era uma doida mansa e feliz, eu posso garantir — dava para constatar nos sorrisos constantes de boca e olhos pisca-pisca que enfeitavam seu rosto arredondado e bochechudo, acima de um estreito pescoço que unia a cabeça ao corpo gorducho de matrona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Pois vocês fiquem sabendo que eu andei muito hoje, resolvendo minhas coisas e esse sapato aqui que estou usando me aperta os pés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um par de sapatos preto, baixo, gasto, sujo de pó — não sei se dessas andanças de hoje, mas que pareciam realmente tê-la acompanhado por outras tantas. Combinavam com o restante de seu visual, montado por um vestido estampadinho, com aspecto envelhecido; coque que deixava alguns fios de cabelo soltos e desgrenhados e uns óculos de lentes e armação grossas. Carregava duas sacolas cheias de não sei o que, mas que deviam ser o suficiente para sua vida feliz e despreocupada de doida — eu que uma vez já quis entregar-me inteiramente à felicidade sei que basta carregar bem pouco. Porque naqueles dias em que estive disposto a largar todas as coisas que me sustentam e me equilibram na vida burguesa que tenho para viver doidamente o que meu coração pedia, eu ia precisar de menos do que ela carregava. Entretanto, a razão dessa felicidade não me queria como eu a queria. E hoje acumulo coisas que nem em sacolas cabem. Mas toda minha felicidade embalada apenas num saquinho de pipoca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ia nos contando vários fragmentos avulsos do seu dia e de sua vida, pulando de um para outro sem preocupar-se com qualquer coesão que os pudesse correlacioná-los. (Mas o que estou dizendo? Se ela se preocupasse com coisas do tipo eu teria o direito de chamá-la de doida? Isso se tivermos nós realmente esse direito de classificarmos o que é ou não loucura...). Maura me constrangia com sua total de liberdade de ser. Ela simplesmente não se preocupava. Enquanto nós — nós desperdiçamos muito do nosso tempo alimentando sonhos e desejos que talvez nunca sejam realizados porque já formulamos antes leis e convenções que nos reprimem. Maura poderia dançar nua naquela rua tão movimentada, rindo gostoso ao som de sua encantadora música imaginária até que alguém repletamente envergonhado — sobretudo porque não teria tal coragem — a faria parar. São Paulo já havia dito há muito tempo em uma de suas cartas aos Coríntios que Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Eu gosto muito de cerveja. Lá na minha casa tem um &lt;em&gt;freezer&lt;/em&gt; cheio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desculpe-me, Maura, por não ter pedido um copo para você beber conosco. Até cogitei fazê-lo, mas achei melhor não. Mesmo porque você não precisa. Nós que nos dizemos normais é que precisamos da cerveja e de outras tantas substâncias para podermos entrar de quando em vez nesse mundo que você vive. Todos nós de uma maneira ou de outra lhe invejamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela nos contou que sua mãe a odiava e queria lhe fazer o mal:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Se um dia vocês virem na capa do jornal: “Maura morreu”, podem saber que foi ela quem me matou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Impossível que sua mãe, sendo viva, a odeie. Difícil crer como alguém não possa gostar de um ser como a Maura, tão agradável e alegre. E eu poderia ter ficado o resto do dia ali ouvindo-a falar, vendo-a rir. Mas o relógio, invenção dessas das mais doidas de gente séria que quer pôr rédeas no tempo, me avisou que já era hora de ir. Chamei minha amiga, que estava igualmente encantada com nossa companhia, pagamos a conta e nos despedimos de Maura, que só pareceu entender que já nos íamos quando nos viu levantar das cadeiras. Então também levantou, agradeceu, se despediu dando tchauzinho com a mão e saiu andando em direção oposta a que seguimos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu e minha amiga nunca a esquecemos e vez ou outra quando estamos juntos comentamos: “lembra daquela tarde da Maura?”. Claro que sim! Maura nossa amiga doida predileta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se alguém que me lê agora vir um dia por aí em algum jornal a notícia de que Maura morreu, por favor, me avisa para que eu possa chorar por mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;escrito em 24/08/2006&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-1158643545485045317?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/1158643545485045317/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=1158643545485045317&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/1158643545485045317'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/1158643545485045317'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2008/06/maura_08.html' title='MAURA'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3661525739902717407.post-8467354900712129550</id><published>2008-06-07T17:49:00.005-03:00</published><updated>2008-06-07T19:27:28.637-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='introdução'/><title type='text'>DE QUANDO EM VEZ OU O PORQUÊ DO BLOG</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;“poetas sem livro de versos — bissextos pela escassez de sua produção”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Manuel Bandeira&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Há muito que me despi da timidez em mostrar o que escrevo. A razão pela qual começo tardiamente — segundo o considerável número de entusiastas que tive para a construção deste blog — a divulgar-me através deste suporte não é outra senão a consciência de minhas limitações e fragilidades para produzir. Não posso me queixar da freqüência de momentos de inspiração – sobretudo numa vida costumeiramente tão repetitiva como a minha. No entanto, sempre é muito longa a gestação dos frutos que tais momentos fecundam em meu coração e mente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu processo de escrita é lento. Exijo de mim, na maior parte das vezes, mais do que eu previamente sei que sei. Então vou tentando. Guiado pela música das palavras agrupadas e pelas pistas que elas vão me dando — tal elas mandam mais em mim que eu nelas. Não é nada fácil. Há momentos em que elas simplesmente não combinam, brigam, falam alto, não obedecem ao curso que eu quero lhes dar. E sou eu sozinho para domá-las.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é exatamente por isso que, apesar de tudo, é só com a escrita que me aproximo do que eu realmente quero dizer. A rapidez da oralidade não me permite manejo satisfatório com animosidade das palavras e acabo por me atrapalhar em constantes atropelos. Se eu suportasse me calar, sei que seria bem menos complicado. Mas não. Dizer é um de meus modos de existir. E para que o ato de dizer não seja vão, preciso que me escutem, que me leiam. Para existir preciso do outro. Quase abstrato — pequeno que sou. Pequeno demais para suportar as minhas dores. &lt;em&gt;“Por isso”&lt;/em&gt;, assim como Drummond, &lt;em&gt;“gosto tanto de me contar. / Por isso me dispo, / por isso me grito, / (...) preciso de todos.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Este blog me auxiliará, carregando e exibindo as mais sinceras verdades que os acontecimentos me revelarem e me fizerem sentir, através crônicas, contos ou qualquer outra forma que ganhem. Só não esperem poema. — Apesar da epígrafe inicial e de desconfiar que tenho espírito mais ou menos de poeta, não tenho qualquer habilidade com o manejo do verso. A partir de hoje postarei diariamente alguns textos que já escrevi, há pouco ou há muito tempo. Depois, como já deve ter ficado claro, não contem com periodicidade regular... Este blog é de um autor bissexto!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3661525739902717407-8467354900712129550?l=papeisbissextos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/feeds/8467354900712129550/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3661525739902717407&amp;postID=8467354900712129550&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/8467354900712129550'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3661525739902717407/posts/default/8467354900712129550'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://papeisbissextos.blogspot.com/2008/06/de-quando-em-vez-ou-o-porqu-do-blog.html' title='DE QUANDO EM VEZ OU O PORQUÊ DO BLOG'/><author><name>filipe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08763703588636945443</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-RMIuZgKQ6fM/TlGeYefedkI/AAAAAAAAAfE/0bAB7xYptis/s220/o-matic.png'/></author><thr:total>6</thr:total></entry></feed>
